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A Carta Perfeita Fevereiro 13, 2009

Posted by joão carlos santos in Main Road.
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dia dos enamoradosCerto dia escreveu uma carta. Uma carta digna de elogios literários e que lhe incitou mesmo um romance ardente. Foi apenas uma carta resultante de um dia inspirado. Conseguiu juntar elogios inusitados. Organizar comparações subliminares. Chegou a captar a essência feminina. Esmiuçou-a com destreza e perícia. Uma verdadeira obra de arte. Mas com a compreensão dos grandes escritores de uma só obra, tentou apenas mais uma vez. Para outra mulher, e não conseguiu. Transido pela sua imaginação, nunca mais conseguiu construir a frase certa. Qualquer adjectivo lhe pareceu falhado. Os malditos adjectivos. Pensou se não seria uma espécie de maldição. Invocada pela outra, obviamente. Foi-se o poeta e escritor. Apareceu o malandro e mulherengo. Descobriu, por acaso que carta , única na sua essência, com as convenientes mutações e adaptações, assistiria aos seus intentos românticos por toda sua vida! Bastava mudar nome e a data, incrementar um pormenor, descrever uma circunstância. Como os seus relacionamentos eram curtos, nem se preocupava com a elaboração de uma segunda carta.

Mas todos os poetas meliantes têm seu dia. O poeta esqueceu de fingir que era dor. Depois esqueceu-se de mudar o nome na carta. Mas a terceira falha foi fatal. Esqueceu-se que estava a repetir um relacionamento com alguém com quem já partilhara aqueles sentimentos. Há vários anos que não se viam ,e de repente, ela volta de Madrid. Como a conquista continuava amarrada num andamento demasiado lento, ele soltou a carta da manga. A carta. O resultado foi o expectável. Nesse dia decidiu escrever a carta perfeita. Não era para ninguém. Ou podia ser para todos. Era apenas uma forma de ele descobrir se ainda conseguia sentir algo. Sentir e escrever. A carta perfeita. Perfeita apenas para ele. Começou a escrever. O Dia dos Namorados estava a chegar. A altura própria seria esta. Olhou, o sol ainda fraco de Fevereiro, e começou.

 

“ Esta devia ser a perfeita carta de amor. Queria escrever somente para os teus olhos. Mas começa mal. A cor do papel não esta certa. Não acertei no amarelo pardo com laivos escurecidos pelo tempo. O perfume borrifado não emprenhou os sentimentos descritos. As colagens inusitadas ficaram na gaveta da secretaria. Não foi escrita com nanquim ou giz de cera. Escrevo-a com letra preta num fundo branco. Como uma receita médica. Com caracteres rascunhados pela pressão de sentir a perfeição dos sentimentos.

Temo não conseguir torna-la embaraçosa de tão ridícula. Colante de tão exagerada. Dramática de tão humedecida. Vou arrepiar dos conselhos dos mestres. A minha carta de amor não será ridícula. Por isso, talvez não recebas uma carta de amor. Como eu queria que fosse. O ridículo apenas é perfeito porque nos expõem totalmente. Não sei se vou conseguir despir-me dos meus preconceitos e dúvidas.

Tenho sérias dúvidas se devo alimentar a negro as analogias fáceis. O Amor comparado a natureza. A Beleza interpretada por músicas do Sinatra. Não quero transcrever letras de músicas ou poemas. O plágio não costuma ser muito romântico. Embora possa ser ridículo. Fico na dúvida.

Tento incorporar o ridículo de uma outra forma. Levantei-me e fui acender uma vela. Escolhi a de cor vermelha. Coloquei uma música romântica e tomei um banho perfumado. Escolhi a minha melhor caneta. Sentei-me com calma e olhei novamente para o papel. Vislumbro com dificuldade. A luz da vela não ajuda. A miopia nunca foi aliada do romantismo. Mas tento concentra-me, e focar-me em ti. Imagino-te a ler cada linha da declaração exagerada. Talvez te envie apenas o rascunho. È mais espontâneo e desprovido de críticas. A minha própria auto-censura.

Nas poucas linhas já escritas, não encontro nada de criativo ou original. A necessidade de ser romântico engole o discorrer da escrita. A necessidade de provar o que digo magoa-me os dedos. O desespero de fazer com que a relação evolua faz-me esquecer as regras básicas da gramática. É complicado ser original ao falar de amor. Possuo a necessidade incessante de possuir um amor único, tão intenso como ninguém jamais viu. Tão eterno o quanto dure, e apesar disso, tenho dificuldade em universalizar sem amolecer, sem fazer com que a magia se perca nestas parcas  palavras. Mas tento. Sim, vou tentar nestas linhas.

Sim, vou tentar escrever esta carta de forma perfeita. Apesar de ser estranho. Estranho, por ser exactamente eu a estar a escrever esta carta. Como posso ser eu? Eu, demasiado frio, demasiado independente, demasiado bem com a vida. Quantas máscaras se usam num ano! Corajosamente não mudei de personalidade pelos sentimentos que me invadem, embora muita coisa esteja diferente. A minha perspectiva alterou-se. Os meus sonhos transformaram-se. Os meus desejos tornaram-se mais acutilantes. A minha solidão isolou-se. As músicas agem com mais sentido, e os poemas conseguem-se viver.

Parece que o mundo à minha volta adquiriu tons quase dramáticos. Tão intenso, como o desejo de te possuir em mim. Teimas em andar ao meu lado, de mãos dadas. Conversar comigo, ainda que em silêncio. Dizendo-me pelos olhos, tudo aquilo que não consigo definir nestas palavras. Por vezes, admito não ter esperanças. Que tudo é demasiado complicado. Difícil. Mas minto. Algo tem de existir ou não estaria escrevendo estas linhas. Na verdade, esta carta é antes de tudo um desabafo. Talvez por que temos esta necessidade de declarar e espalhar que estamos apaixonados. Seria mais fácil escrever uma tese de doutoramento sobre “A necessidade humana de falar sobre a Paixão”. E sempre mais fácil analisar e dissecar os sentimentos alheios. Por que não guardar estes sentimentos? Por que não proteger esta afecção dos danos da realização? Porque razão tenho de te  entregar este tipo de poder sobre a minha emoção? Não sei. Nunca saberei. Sou um ser humano comum.

Interrogo-me sobre esta necessidade de metamorfosear tudo em verbo e substantivo. Todo o objecto do meu desejo. Dos meus sentidos. Da minha ira. Do meu cuidado. Do meu ciúme. Da minha admiração. Do meu carinho demonstrado. Causa da angústia e do riso. Porque o que causas em mim, nunca é indiferença. Todos os teus gestos têm uma repercussão na minha existência. Pequena ou grande. Boa ou má. Não importa, eu sei que existe. Na verdade, nunca gostei de sentir tão vulnerável a coisas tão banais. Mas a felicidade de actos simples, traz em si mesma, uma alegria tão plena, que praticamente me esqueço da vulnerabilidade da minha ingenuidade.

Alimentas-me as ilusões. Enches-me de magia os meus devaneios. E vais conquistando devagar. Fazendo um cerco invisível. E eu, praticamente rendido. Ainda me pergunto como tu não me leste os meus olhos. Sinto-os como se fossem letreiros em néon divulgando, ferozmente, a minha paixão. Talvez a minha máscara esteja melhor aplicada que eu cogitava. Eu quero-te. Eu desejo-te. Comigo. Na verdade, quero ter comigo a certeza de que ao menos tentei. Talvez seja essa a função da necessidade absoluta da paixão em declarar-se. “Por que amor, não se troca. Não se conjuga, nem se ama.” – declarava o  Drummond. Por isso esta carta nunca será perfeita. Como eu não o sou. Mas existe algo que te posso dizer. Talvez assim a torne perfeita. O Meu coração, com todas as taquicardias e arritmias da paixão, é teu.”

POST SOUNDTRACK

BLUE OCTOBER ” MY NEVER”

Comentários»

1. AT - Fevereiro 14, 2009

Só para ti.
As palavras nunca foram o meu forte. Não te escrevo uma carta de amor porque não saberia como começá-la ou sequer acabá-la. Quero porém dizer-te hoje que é o nosso dia que : não imagino a minha vida sem ti. O teu amor faz-me sentir uma melhor pessoa, querer ser melhor todos os dias. Tambem o meu coração é teu, para sempre. Amo-te
Perdoa-me se nem sempre o demonstro e se nem sempre o digo.
Mas fica com esta certeza, estás sempre comigo. Amo-te