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A Caixa de Correio Fevereiro 11, 2009

Posted by joão carlos santos in Road Stories.
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correioPor vezes temos de arrumar a nossa caixa de correio. A facilidade não á a mesma de antigamente. Tinha-se uma chave e simplesmente abria-se aquela porta de correio esverdeada na entrada do nosso prédio. Era simples. O que não interessava aos olhos ficava imediatamente no caixote de entrada. Agora tudo se tornou mais complicado. Ninguém recebe cartas pelo correio. A porta esverdeada apenas encerra publicidade colorida e contas cinzentas. Toda a comunicação se tornou etérea. Viaja em ondas distribuídas por caixas de email.

Aqui á dias decidi arrumar essa caixa de Pandora. Abri o email e deparei-me com 1350 mensagens. Todas lidas. Mas continuavam ali. Estáticas. A nossa caixa de correio electrónico demonstra o nosso objectivo de vida. Por vezes parece que vivemos para acumular coisas. Gostamos de reter connosco monos e inutilidades. Ficam ali especados, no fundo de algo, á espera de uma resolução, de uma limpeza ou de um destino que lhes é constantemente adiado. As mensagens ficam ali no espaço restrito do gigabyte. Como se fosse uma zona de escombros. Podemos sempre querer dar-lhes uma última olhadela. Podem servir para nos relembrar de algo tão importante que nem sabemos bem o que será.

Quando olhei para a minha caixa de correio electrónico senti uma espécie de censura materializada. Mil trezentas e cinquenta razões de censura. Uma censura interior, não me deixou apagar os seus vestígios. Arrumadas em pastas para não nos lembrarem que existem. Para podermos adiar uma acção ou reacção. Para não inundarem o odor do presente com o cheiro do mofo ou empoeirarem a nossa realidade actual. È como sacudir o pó dos ombros. Esquecer mas guardar. Porque nunca se sabe. Porque um dia, podemos querer perceber a nossa existência e perceber o tempo que por nós passou. E elas ali vão estar. Estáticas. Escritas com sentimentos passados. Prontas a ajudarem na nossa validação da própria existência. São o nosso rastro de vida.

Aquelas mensagens já nos serviram. A sua decadência ou a desadequação foram factores supervenientes. Apenas a incapacidade humana de ruptura definitiva nos fez resistir ou adiar a sua anulabilidade. Aquelas mensagens deixaram de nos servir. Ou, nós próprios, deixamos de lhes servir como destinatário adequado. Falta-lhes o lugar adequado. Não existe. Ocupam o lugar da nossa nostalgia. E mesmo esse lugar pode ser exíguo.

Se nunca as apagarmos, elas podem na verdade, sobreviver-nos. Podem apresentar-se com um diário de escombros desorganizado. Nunca perceptível para outros. Embaraçosas e incomodas para outros. Perdidas na estratosfera da memória que guardem de nós. Vão ser avaliadas e descortinadas por outros. Apagadas sem o nosso critério. Distribuídas aleatoriamente e lidas sem uma introdução própria. Como cartas de amor antigas. Ou cartas de ódio, igualmente antigas. Tudo sem um contexto. O nosso contexto. Por isso, vale a pena ler, novamente. Avalia-las. Sorrir ou ficar zangado. Viver mais uma vez o momento. O que lêem de seguida é apenas um desses momentos retirados dos escombros. Para relembrar e aprender. Porque nos nossos escombros encontram-se sempre lições valiosas. Porque a nossa vida será sempre atravessada por pessoas que nos fazem crescer. Independentemente do tempo de partilha. Ficam as mensagens. Ficam as lições.

 

“Já vi que ficaste triste com a minha anterior mensagem e por isso escrevo este mail. Contigo é sempre mais fácil se te escrever. Aqui não podes interromper. Tentei usar a tua linguagem e ir ao teu mundo. Por isso aqui vão as regras de leitura deste email:

- Ler pausadamente e de preferência em voz alta – ajuda a pausa e a absorção do diálogo
- O que diz pausa é para pausar – não é para ler “pausa” e seguir
- Onde diz silêncio, é para parar de ler e olhar para uma janela ou para uma parede, ou qualquer coisa que não seja o texto
- Em nenhuma altura se pode sentir a palavra culpa ou desculpa
- Em nenhuma parte existe cobrança, justificação ou sentença

“… e posto que esta tinta é o meu sangue, esta carta sou eu…” Cyrano de Bergerac. Ficaste triste com a minha mensagem, porque ela de alguma forma te devolve a realidade…
(pausa)
Tu sabes das minhas condicionantes. Então eu pergunto – porque será que teimas e insistes?? Consigo ouvir-te dizer “ … porque EU gosto da tua companhia, porque EU tenho saudades tuas, porque EU quero estar contigo…”
(silêncio)
Será que não entendes ou que pensas que é má vontade da minha parte? Será que pensas que por insistires as coisas se alteram?
(pausa)
Já conversámos tantas, tantas, tantas, tantas vezes acerca da tua situação, que até já me enjoa falar disso. Mas tu insistes e insistes e insistes na tua visão dela. Por vezes parece que te estás nas tintas para o que eu digo ou para o que me faz diferença ou deixa de fazer.
(silêncio)
Gostas da parte de mim que te faz feliz.
(silêncio)
É contraditória a tua maneira de viver comigo.
(pausa)

Adoras-me. Adoras-me. Adoras-me, até à parte em que Te preencho e satisfaço a tua vida. A outra parte, simplesmente esqueces. Esqueceste-te do que me angustia, do que me magoa e consome.
(silêncio)
Egoísmo, é beber veneno e esperar que os outros morram. Egocentrismo, é o Sol de verão, que queima tudo, e todos escolhem viver na sombra. Individualismo, é viver bem comigo, sem abdicar da essência maior que é a liberdade. De ser e de escolher.
(silêncio)
No nosso isto, podes beber tudo o que tu quiseres, que nada se vai alterar. O Universo juntou-nos para ambos aprendermos e sermos felizes. Do teu mundo, eu retiro o importante e o válido para mim desta história.
(pausa)
Do meu mundo, até agora não retiraste nada. Ris. Descontrais. Ponto.
(pausa)
E eu sinto-me constantemente a ser puxada para algo que não quero. Constantemente como se me puxasses num braço para um mundo que eu não quero, não gosto, não me apetece e não vou. Eu não escolhi encontrar-te e tu não escolheste ficar comigo. A vida é maior que nós dois .
(silêncio)
Não penses nisto. Não me respondas. Abraça só. Um beijo tão grande, tão cheio de saudades…”

O meu conselho, é que voltem a arrumar a vossa caixa de escombros. Pelo menos periodicamente. Perdido no meio dos escolhos existem pedras preciosas. Lições que já vivemos. Que por vezes precisam de ser relembradas. Porque a vida deve ser feliz. E aprender ou reaprender só a fará melhor. Porque existem coisas que vale a pena guardar.