A Trigésima Oitava Vela Dezembro 31, 2008
Posted by joão carlos santos in Main Road.add a comment
Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem? – perguntou em tempos Confúcio. Sempre tive dificuldade em responder a esta pergunta. Não porque tivesse um dificuldade substantiva em encontrar a resposta. Sempre me senti mais novo do que aquilo que o meu bilhete de identidade apresenta. Por isso nunca respondi. Para não passar uma certa ideia de imaturidade. Mas a verdade sempre foi essa. Sempre me senti abaixo do ponteiro da idade fidedigna. Não consegui ter a sagacidade de outros homens na arte da resposta. Em tempos, perguntaram a Galileu, quantos anos tinha. Oito ou dez, respondeu Galileu, em evidente contradição com sua barba branca. E desde logo explicou. Tenho, na verdade, os anos que me restam de vida, porque os já vividos não os tenho mais. Mas como fumador que sou, nunca poderei ter tanta certeza para evocar este tipo de resposta. Portanto, resta a resposta baseada na terceira dezena. No dia trinta de Dezembro celebro o meu trigésimo oitavo aniversario. Hoje é o meu dia.
Aniversário é o Ano Novo Particular de cada um. No dia do aniversário todos se sentem diferentes. É como se aquelas vinte e quatro horas tivessem sido feitas exclusivamente para nós. Partindo desse princípio , tudo o que se faz ao longo do dia, faz-se , digamos, de forma mais relaxada. O que seria muito importante nos dias normais acaba por ser relativizando. Porque, essencialmente, o dia do aniversário é um dia especial. Sentimos as faces ruborizarem-se quando são contadas histórias de quando éramos pequenos. Ou mesmo quando são exibidas as roupinhas minúsculas que usávamos. E aqueles álbuns de fotografias já meio amarelados que aparecem subitamente sempre neste dia. Mas, tudo faz parte. Celebra-se a nossa historia particular.
Mas a grande verdade é que depois do vigésimo quinto aniversário já nada é tão divertido. Não por causa da idade, mas sim por que as nossas expectativas ficam muito mais altas. Já não é qualquer festinha com muita cerveja que nos satisfaz. Sem contar que existe toda uma imensa pressão para se usufruir de um dia extremamente diferente de todos os outros. Ora fazer com que isso aconteça no dia trinta de Dezembro não é tarefa fácil. Na sua maioria, está tudo ainda na ressaca do Natal em intervalo para ganhar fôlego para a festa de dia trinta e um. Dia trinta fica bem no meio. No meio do período de ressaca. No intersecto das duas maiores festas do ano. Mas mesmo assim sempre fiz um esforço. Sempre tentei ir a lugares diferentes e fazer coisas diferentes.
A grande maravilha seria se cada um de nós pudesse em cada ano escolher o dia do seu aniversário. Um dia que realmente se estivesse com vontade de sair e fazer alguma coisa diferente. Mas isso é meramente impossível. Por trás do nosso dia de nascimento existe sempre uma aura resplandecente. Uma alegria embutida em anéis de círculos de tempo . Quando se almoça pensa-se - “bolas, este é o almoço do meu aniversário. Vou mas é a outro restaurante.” Quando nos vestimos de manha, olhamos para o espelho e pensamos – “hum, será esta a roupa do meu aniversário???”. E voltamos a olhar vinte vezes para dentro do roupeiro. Tudo isto dá um significado especial para as coisas do quotidiano que não sabemos exactamente para quê servem. Coisas de aniversário.
A única coisa mais fora do comum do dia do aniversário é ter que repetir “obrigada” tantas vezes. È o preço do prazer de ter um dia só nosso. Obrigada mãe. Obrigada, Pai. Obrigada, Amor. Obrigada, Tia. Obrigada, Primo. Obrigada, Paula. Obrigada, Rui. Obrigado, a toda gente. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Por muito curioso que seja, até hoje, aparentemente ninguém consegui não consegui encontrar nenhuma palavra mais adequada para prenunciar depois dos parabéns. O problema é que nestas datas, tudo o que é feito para expressar prazer e satisfação, é manifestado em excesso. É como se um simples e mero “parabéns” fosse manifestamente pouco para cumprimentar alguém pelo seu aniversário
- João, muitos parabéns! Hoje és bebe…
- Obrigada.
- Muitas felicidades.
- Obrigada.
- Muitos anos de vida.
- Obrigada.
- Olha, desejo-te tudo de bom neste próximo ano.
- Muito obrigada.
- Parabéns, mesmo.
- Obrigada, obrigada.
E a cena repete-se durante o dia todo. Os nossos familiares e amigos com os inúmeros parabéns e desejos e nós com os inúmeros obrigados naquela nossa cara sem graça. È claro que adoramos que nos telefonem. E bom saber que os outros se lembram de nós e nos estimam. Mesmo que exagerem. È da praxe. E todos adoramos. Senão fosse assim não nos lembraríamos com exactidão de todos aqueles que não o fizeram. È a natureza humana em funcionamento.
Mas a história mais genial sobe um dia de aniversário que eu ouvi proveio de uma pequena menina.. No dia do seu aniversário ela acordou, olhou sorrindo para a mãe e perguntou – “. Já está?? Que tal, mãe? Cresci?.” Na cabeça dela o “crescimento” dava-se exactamente no dia do aniversário e exactamente na hora que ela acordasse. Talvez seja por causa disso que ouvíamos sempre em pequenos “Joãozinho, estás a ficar tão grande, que bom”. A ideia é excelente. E este ano vou aproveita-la.. Assim, tenho o dia todo de hoje para pensar em quê e como vou crescer este ano . Mas acho que já sei em como vou crescer este neste aniversário:
“Trabalhar como se não precisasse do dinheiro,
Amar como se nunca tivesse sido magoado,
e dançar como se ninguém me estivesse observando.”
Amanha de manha quando acordar, vou ao espelho e pode ser que tenha acontecido. Porque, afinal de contas, no dia do nosso aniversário tudo é perfeito, somente com o dia seguinte para atrapalhar.


