Acordar para Olhar Junho 5, 2008
Posted by joão carlos santos in Main Road.1 comment so far
As manhãs sempre me foram penosas. Sempre me foi problemático acordar espontaneamente. Sempre achei difícil a peripécia de abrir um olho de cada vez. Alternando a sonolência matinal entre cada pálpebra. Acordar anestesiado. Como é custoso acordar calado. Sempre encontrei dificuldade em acordar. Talvez porque fosse o acordar diário de um sonho que fosse mais um talvez do que um senão. É tão crítico acordar quando se é sonâmbulo. Nunca se distingue se se está mesmo acordado. Existe sempre o perigo da própria vida ser um sonho ou de se passar pela vida como um pesadelo. Acordar é sempre um malabarismo ardiloso. È ininterruptamente difícil para quem não dorme acordar tarde.
Acordar é sempre crítico. Acordar é mais difícil que administrar Sodoma na Primavera. Mais problemático do que desejar, abominar ou mesmo ignorar. Acordar é mais difícil do que tocar xilofone numa marcha popular. É mais intrincado do que traduzir Saramago para o tailandês. Acordar é um penitenciamento crítico. Acordar é mais difícil que insultar o leiteiro em latim. È mais difícil que ser um pivot televisivo gago ou mesmo do que soletrar uma palavra sem significado.
Acordar é algo horrivelmente ambíguo. Quer seja numa segunda-feira ou mesmo numa sexta. Acordar é tão difícil quanto encontrar um amor perdido ou domar uma fobia alheia. Acordar é algo difícil e lento. Acordar é tão delicado como esquecer. Acordar é circunspecto no começo e o fim. Mas no meio também o é igualmente. Acordar é tão difícil quanto acertar as horas pelo sol da manhã. Ou fugir da chuva numa tarde quente de verão. Acordar é espinhoso até em espírito. Na verdade, acordar é sempre uma errata falaciosa. È ficar em silencio porque se errou na vida. Acordar e viver de vez em quando e sonhar de quando em vez.
Por tudo isto foi curioso acordar e sentir-me bem. De imediato. Sem pausas para sentir aquele habitual torpor de malandrice sonolenta. Olhar para o lado e exclamar – “ Estás tão linda”. Ouvir um sussurrar de volta em tom de consolo – “ Isso é porque ainda não colocas-te as lentes de contacto, amor”. E poder rir. Sorrir genuinamente. Porque a piada era mesmo engraçada. Porque quem a disse tinha a graça necessária. Porque só nos podemos rir genuinamente quando acordamos felizes. Porque por vezes, tudo o que precisamos de ouvir para acordar felizes, são apenas algumas palavras que teimam em não sair. Porque, na verdade, tudo o que basta para acordar realmente e não saber parar de te olhar.
Music : Ana Carolina feat. Seu Jorge “ È isso ai”



