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Afogado na Areia Fina Janeiro 30, 2008

Posted by joão carlos santos in Road Stories.
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Era um dia normal. Abri o e-mail num acto de pura normalidade diária. Saltou a vista um título em especial. Dizia pura e simplesmente “Momento Zero”. Era do Carlos. Tinha poucos dias antes estado a falar com ele. Parecia determinado em fazer realçar o que ele queria. Amava uma pessoa e estava a determinado a lutar contra tudo para isso. Respeitei-o por isso. Não e fácil agarrar a areia entre os dedos. Ele lutava com todas as armas que tinha. Amava e lutava por isso. Quem o podia condenar por tal acto. O que li deixou-me suspenso. Partilho convosco.

 “ Esta porcaria da minha vida não tem concerto. Nem uma segunda chance de ser feliz tive. Ela resolveu chamar uma palhaçada e porcaria ao nosso relacionamento. Definitivamente, devo ser uma merda. Nada que faço resulta bem. O truque de viver é respirar. Eu sem ela não consigo. Não me apetece afogar. Neste momento apetece-me nadar até perder as forças. Não me vou afogar. Vou-me afundar. Não consigo estar acorrentado a uma existência intolerável. Prefiro o pesadelo da sua extinção. Estas palavras não me saem da cabeça. 

 I tried to kill the pain
But only brought more (so much more)
I lay dying
And I’m pouring crimson regret and betrayal
I’m dying, praying, bleeding and screaming
Am I too lost
To be saved?
Am I too lost?

My God, my tourniquet
Return to me salvation
My God, my tourniquet
Return to me salvation 

 Prefiro a dor imediata do corte milimétrico da veia da vida do que as mil mortes de viver assim. Será que Deus se esqueceu de mim. Será o meu karma tão pesado? Será a felicidade impossível? Não serei eu digno de ser amado? Não será possível viver uma vida normal? 

Do you remember me?
Lost for so long
Will you be on the other side?
Or will you forget me?
I’m dying, praying, bleeding, and screaming
Am I too lost
To be saved?
Am I too lost?

My God, my tourniquet
Return to me salvation
My God, my tourniquet
Return to me salvation

My wounds cry for the grave
My soul cries for deliverance
Will I be denied?
Christ?
Tourniquet
My suicide

È uma decisão baseada na minha ultima réstia de poder e de dignidade, e não numa fraqueza súbita. Amar alguém é uma certeza. Alguns tem uma segunda hipóteses de ser felizes. A minha desapareceu. È uma decisão baseada na minha liberdade de escolha e não no medo. A liberdade de contemplar o inimaginável. Uma liberdade que apenas os mais fortes conseguem tomar. Dizem que é mais difícil aguentar a vida do que escapar dela. Que tolice. Quantos conseguem puxar o gatilho de uma arma encostada ao céu da boca? Quantos conseguem empunhar uma faca directamente nas suas artérias? Quantos conseguem dar o ultimo passo do telhado para o abismo? Quantos conseguem arranjar a coragem de viver uma nova realidade? Quantos conseguem questionar as suas vidas e existência?

 Estou farto de esperar. Esperar por algo de bom. Esperar que algo me salve. Algo que não acontece. Algo que não existe. Só eu me podia salvar. Não consegui. Que se lixe a procura da felicidade. Que se lixe o amor eterno. Tenho que aguentar as consequências. Viver é fácil. Basta não pensar. Não sentir. Basta ser egoísta para gostarmos só de nós. Não consegui fazer isso. Não consegui ser o homem comum. O homem é feito para aguentar a dor. Aguentar as lategadas do destino e do tempo. Tudo se aguenta desde que não se  questione. Desde que ele não se pergunte se vale a pena sofrer. Basta seguir a rotina. Basta seguir o usual. Se não se consegue estar com a única pessoa que se ama, tenta-se uma outra qualquer. Não interessa o sentimento. Eu não consigo. Não sou uma pessoa de rotinas. Dói-me. Sufoca-me. Quero o que amo. Mais nada. Só exijo o máximo porque não sei viver com menos. Bastava-me não pensar , apenas  estar e envelhecer ao lado de alguém. Não interessa quem. Talvez até ter filhos. Não interessa com quem. Bastava não pensar. Não consigo. Não consigo deixar de pensar. 

  Certamente no fim, talvez os outros digam que não aguentei a pressão do trabalho. Que sempre sofri de depressão. Que não suportei o facto de a pessoa que amava me ter deixado. Que não suportava a solidão. Que era demasiado sensível e irrequieto. Que era demasiado instável. Essas vão ser as suas palavras. Uma pura estupidez. Um catalogar estúpido daquilo que nunca perceberam. Vão sentir simpatia e compaixão. Vão proclamar a minha falta e a saudade e o futuro brilhante que ainda tinha a minha frente. A simpatia pelos mortos é cega Uma cegueira temporária. No outro dia, todos estarão na sua rotina. Eu serei uma lembrança de Natal. Mas ninguém compreenderá as razões. Não o faço para acabar com a dor. Faço como algo positivo. Faço porque gosto da vida. Gosto de viver a vida plenamente. Viver um vida real com emoções genuínas. E isso é algo que já não posso fazer.  

O poder de tomar a decisão final. A única que não pode ser desfeita. Sabendo que pode ser um erro terrível. Um negocio com o diabo. Um passo voluntário em direcção ao  desconhecido. Ser um Nada. Sentir um Vazio. Não Existir. Apagar-me como se nunca tivesse existido. Inferno ou céu? Sentir a beleza do abismo. A antecipação de olhar para o esquecimento. Ver o chão ao fundo , distanciado, mas a realidade a segundos apenas .Estar apenas ali. Sozinho. Sentir a eternidade nos escassos segundos de um mundo restrito. Sentir verdadeiramente a existência. Tomar o ultimo fôlego. Dar o pequeno passo. Saber que se tomou uma decisão. Sentir um pé no abismo. Sentir a falta de equilíbrio. Cair. Ganhar velocidade. Sentir o vento frio na cara. Ver o chão a aproximar-se. Pronunciar a ultima palavra. A última memoria. Saber o que se fez. Talvez ate sentir alguma dúvida Possivelmente arrepender-se. Desejar voltar ao topo .Misericordiosamente saber que acabou. Ver a verdade, por muito insuportável que seja, numa fracção de segundo. Os 5 segundos mais reveladores da nossa existência. Acabou. O fim. Obrigado por tudo.” 

 Quando acabei de ler, não consegui respirar. Faltou-me a memoria. Não consegui visualizar a cara do Carlos. Tinha-o visto milhares de vezes. Agora nem conseguia ver a cor dos seus olhos. Telefonei mas fui atendido por uma mensagem com a sua voz. Não sei o que se passa. Talvez nunca venha a saber. Mas esta música eu nunca mais irei esquecer.  

Music: Evanescence “ Tourniquet”