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A Mulher que queria ter uma familia Dezembro 12, 2007

Posted by joão carlos santos in Main Road.
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A Helena poderia ser uma personagem de um romance cor-de-rosa. Daqueles que já só se encontram num alfarrabista do Bairro Alto. Era uma mulher solitária. Os trinta e poucos anos tinham sido feitos de ilusões românticas. A Helena gostava de se apaixonar. Tudo se esfumou. Cada homem presente era a sua vida no esplendor. Cada homem passado era como uma adaga cravada no seu coração. A Helena dizia-se forte. Nada a poderia abalar. Proclamava a sua auto-confiança a bom som. Alto, de preferência, de modo a poder convencer-se. Cada palavra era uma declaração de independência. De confiança. Mas na verdade, a Helena não queria ser independente. Queria poder depender do carinho de alguém. Sentir o colo amado da confiança depositada em alguém.  

Os imensos amigos não lhe apagavam a tristeza da alma. O sorriso aberto forçava uma alegria encenada. Alegria de sábado á noite. Tristeza semanal. A alma não se contenta com minutas requerendo uma felicidade oficializada. Mas a Helena tentou. Procurou o objectivo parcial. Esqueceu o amor e procurou a família. A sua família. Criada de raiz. O filho e o marido da praxe da cultura popular. Com direito a flor de laranjeira e grinalda branca. A Helena desapontou-se com o amor. Deixou de persegui-lo. Não quis mais esperar. Olhou para a esquina e não viu ninguém. O coração não palpitou. O fôlego não lhe faltou. As pernas não vacilaram. E a Helena casou-se.   

A vida tem objectivos. Todos eles parciais. A Helena não desistiu dos dela. Não ia ser uma coisa banal, como o enamoramento por algum príncipe encantado, que a iria fazer desistir. O casamento foi a solução. Helena percebeu que tudo que estava a sua volta era o produto da particularidade de sua ideia sobre o conceito de amor. As ideias seguem a lei da causa e efeito. A pura existência de um efeito para cada causa. Helena percebeu que se quisesse mudar o efeito (vida solitária), tudo o que precisava fazer era mudar as causas (sua concepção de amor). Os objectivos reverteram-se. Família em vez de amor efémero. Estabilidade em vez de emoção.   

 

 

A Helena acha que hoje, é feliz. Terminou de saldar em Novembro, o empréstimo bancário relativo ao apartamento T2 em Rio de Mouro. Com algumas poupanças, consegui fechar a marquise, para colocar a nova máquina de secar roupa. Substituiu a alcatifa por um chão de madeira flutuante. Ninguém foi despedido e por isso as prestações da carrinha Renault estão garantidas. Assistem a mesma telenovela e nunca discutem por causa do comando remoto. Estudam a TV Guia como um mapa de tesouro para o fim-de-semana em frente ao novo plasma. 

 A Helena sente que é feliz. Os domingos são sagrados. A rotina impele-os a carregar a carrinha de pasteis na vista a Sintra. Visita a  mãe dele com um pacote dos benditos pasteis na mão. Enquanto ele fica a conversar com a mãe na cozinha com lareira, ela passeia com o pequeno africano, filho de uma senhora emigrante que habito no mesmo pátio. Assistem ao jogo de futsal dos sobrinhos dele no pavilhão polivalente. Comem uma salada de búzios e umas caracoletas na tasca, durante os resumos do futebol. Voltam para Rio Mouro à noite, com o jantar que a sogra carinhosamente lhes enviou numa marmita embrulhada num qualquer jornal desportivo. Arrumam a carinha apressadamente em segunda fila, mesmo a tempo de assistir às perguntas sobre factos e personalidades de um qualquer concurso em que a apresentadora se parece com a prima Leonor, a tal que montou um pronto-a-vestir no Centro Comercial do Martin Moniz.  

 

 

A Helena pressentia a sua felicidade. Compraram um cão por prova de amor. Removeram a alcatifa que as unhas do animalzinho rasparam de tal forma que já se notava o cimento. Ensinaram-no a não estragar as cortinas, puseram-lhe uma coleira contra as pulgas depois de uma semana inteira de intensa comichão. Às segundas, quartas e sextas era ela que levava o cãozinho ao respectivo ritual urinário contra a palmeira. Às terças, quintas e sábados era a vez dele. Ficava à janela, a olhar para o bichinho a cheirar os pneus de um Fiat Uno ou de um qualquer poste,  com aquele ar sério de quem resolve problemas de Sudoku .Talvez o filho tivesse sido melhor ideia. Mas não quiseram estragar os primeiros anos de romance frente ao plasma. Aquilo tinha sido um investimento brutal. Enquanto, não acabassem as prestações, não haveria lugar a uma criancinha naquele espaço. O romance é importante num casal. E ela adorava velo jogar Playstation a noite inteira.  

A Helena acariciava toda esta felicidade. Ela não queria ter filhos. Queria viver só para o Eduardo. O Eduardo estava preparado. Tinha uma família. Tinha mulher, emprego, casa e carro. Faltava qualquer coisa. O cão já tinha, só podia ser um bebe. O Eduardo não tinha lá muita imaginação. Mas na verdade eles não comunicavam, por isso a Helena não conseguia de facto dizer-lhe que não queria um bebé. Falavam naquela estranha linguagem que se desenvolve com o propósito de evitar a comunicação directa. Mas pela mesma razão, o Eduardo não lhe podia dizer claramente que ansiava por um filho. A única coisa que ele podia compor era um sorriso para as criancinhas alheias quando saíamos para o Shopping. Aproveitava a visita de sábado á tarde aos irmãos para fazer um grande alarde com os sobrinhos e sobrinhas para quem nunca tivera tempo antes. O Eduardo nunca conseguiu dizer: quero um filho. E a Helena nuca lhe consegui dizer que não. Ela queria uma vida. Uma vida sua. Felicidade que esperava a tanto. 

 

 

  A Helena queria feliz, especialmente a sexta-feira á noite. Era o dia institucionalizado da paixão. O dia em que os dedos dela o penetravam. Parecia sempre uma criancinha a tentar entrar num frasco de doces. A helena achava piada. Nunca tivera um verdadeiro orgasmo. Mas não fazia mal.Não existia qualquer tipo de sensualidade naquele acto, era só um ritual. Helena sentia uma tensão que agoniava. De seguida o pénis dele abria caminho através das paredes tensas, apertadas e secas. Começava a gemer. Gemia sempre. Helena lembrava-se sempre da primeira vez em que dormiu com ele na universidade. A sua amiga Maria perguntou-lhe: 

- Como é que ele é?

- Não é mau – respondi eu -, só que geme um bocado de mais. 

Riu-se imenso e durante muito tempo por causa disso. O que ela queria saber era como é que ele era como pessoa. Helena costumava pensar assim com bastante frequência. Era arrojada à sua maneira calma e comedida. Toda a gente o afirmava. Era assim que ela era. Agora já não. Somente no seu interior. Trocou a rebeldia pela felicidade. A felicidade de ser boa. “ … Oh … como és boa!… “ arquejava ele, alijando a sua carga dentro de Helena e caindo num torpor profundo. Como és boa. Podia ser bom de ouvir. Podia ser o maior afrodisíaco do mundo. Mas vindo de outra boca. Por isso, Helena deixava habitualmente a Cosmo estrategicamente aberta em cima da mesa do café e observava como o Eduardo lhe deitava uma olhadela de esguelha e depois se encolhia repugnado com os cabeçalhos. Se ao menos ele aprende-se. 

O orgasmo da vagina e do clítoris

O seu parceiro é bom na cama?

Como é a sua vida sexual?

O tamanho é de facto importante?

Melhore a sua vida sexual  

 

 

Helena é extremamente feliz quando o Eduardo adormece. Enquanto este dorme profundamente, acontece. Helena descobre o seu clítoris e, sonhando com o amante que ela bem conhece, esfrega deliciosamente. Nesses momentos, ela é verdadeiramente boa. Acontece. De vez em quando é feliz de outra forma absurda. Quando o peso morto da impotência cai sobre o seu centro de gravidade, o Eduardo arrepende-se de ter chegado à cama, e desejaria apagar as promessas, os beijos, as primeiras carícias, a impaciência, a certidão de nascimento. O Eduardo desejaria tornar-se invisível. Mas, precisa de se justificar: -

 Amor, não sei o que me aconteceu.

- Não te preocupes. Acontece.

- É que estou esgotado e tenho os nervos em franja. Desculpa. Amo-te. Não sabes como me apetecia fazer amor contigo. É horrível, meu Deus, é horrível, que desastre.

- Acontece.

A Helena era feliz a conselho da mãe. As mães nunca se enganam. A sua mãe sempre lhe dissera que ela tinha tido sorte por ter encontrado uma pessoa como o Eduardo. Uma pessoa ambiciosa. Uma pessoa que seria capaz de lhe prover qualquer necessidade. As mães procuram sempre para os seus filhos, alguém que as substitua na sua falta. “Ele vai ser capaz de te sustentar” – disse-me ela enquanto eu ajudava o Eduardo a brilhar ainda mais quando ela o estava a inspeccionar – “como o teu pai, sempre fez”. 

- Se o Eduardo dá tudo, o que é que me resta?

- Alimentar. 

Helena podia alimentar o bebé do Eduardo. Helena podia alimentar o ressentimento. A felicidade de Helena baseava-se no alimento. O alimento maternal. Helena não era uma esposa, tinha que ser uma mãe.  

 

 

 A Helena acreditava na felicidade. Por isso nunca se preocupou quando ao sábado, com o animal entretido na praceta o marido, de trela enrolada na mão, sem olhar para cima nem para um simples adeus, andou pausadamente até desaparecer na travessa para a estação dos comboios. Mas a Helena lembra-se de anteontem. Às onze horas, o Eduardo tirou a feijoada do lume e comeu sozinho. Ontem também. Hoje também. Não levou roupa nem a fotografia dos pais, nem nada. 

A Helena continua a gravar os episódios da novela. O Eduardo vai querer vê-los. A sogra telefonou a saber porque é que não foram a Sintra. Helena disse-lhe que o Eduardo não tardava. A Helena tinha a certeza a certeza de que ele não se tinha ido embora. Eles eram felizes. Tão felizes, que no próximo sábado a Helena vai comprar um micro ondas para, que quando o Eduardo chegar a casa, ter a comida quente à sua espera.

 A Helena, na verdade, não se chama Helena. Tem trinta e poucos anos mas ainda não se casou. A verdadeira mulher que quer uma família, sabe quem é. E, se por um acaso, este texto fosse uma premonição? E se a verdadeira causa não for a que ela espera? E se os efeitos forem realmente estes? E se ela acreditar muito no efeito-causa? E se os amigos virem mais longe do que ela? E este texto for um farol? E se a vida não for perfeita?

Music : The Gift ” Facil de entender”