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O Problema de ser Feio Dezembro 4, 2007

Posted by joão carlos santos in Road Stories.
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Quando se chega ao meio dos trinta o nosso grupo de amigos sofre uma mutação. As festas de casamento e as despedidas de solteiro começam a diminuir e os anúncios de divórcio começam a aumentar. Os baptizados são raros. O grupo modifica-se. Os novos solteiros juntam-se aos que se recusaram a alinhar na realidade do casamento. Os trintões, formam hoje a segunda era da adolescência. Tudo se torna a redescobrir, mas agora com mais sabedoria e sabor. 

È verdade que frequento grupo dispares de amigos. Os grupos de amigos são tipicamente fechados. Aos trinta esse mais exigente na abertura a mais amizades. Não basta partilhar um gelado para se ser o melhor amigo.  Mas todos estes grupos têm algumas semelhanças entre si. As pessoas são marcadas pela sua vida. Partilham memórias e educação.

Na verdade, todos nós que nascemos nos anos 70 e no princípio de 80 supostamente não devíamos ter sobrevivido até hoje, porque as nossas caminhas de bebé eram pintadas com cores bonitas em tinta á base de chumbo que nós muitas vezes lambíamos e mordíamos. Não tínhamos frascos de medicamento com tampas “à prova de crianças” ou fechos nos armários e podíamos brincar com as panelas. As tomadas de electricidade não tinham protecção. Sobrevivemos com carácter reforçado.

Andávamos de bicicleta sem capacete e vinte joalheiras. Viajávamos em carros sem cintos e airbags, quando viajar á frente no automóvel era uma recompensa por termos comido a sopa toda. Bebíamos sem medo a água da mangueira do jardim e não da garrafa esterilizada e sabia-nos bem. Comíamos batatas fritas, pão com manteiga e bebíamos gasosa com açúcar, mas nunca engordávamos nem sufocamos com o pirolito Partilhávamos garrafas e copos com os amigos e nunca morremos disso. Suportávamos a suprema humilhação dos supositórios de forma digna. Sobrevivemos com carácter reforçado. A geração dos trinta sobreviveu com um aspecto saudavel.  

Desaparecíamos horas para fazer carrinhos de rolamentos e depois andávamos a grande velocidade pela calçada abaixo, sem nunca nos lembrarmos de montar os travões. Depois de partirmos a cabeça duas ou três vezes aprendíamos que a vida era feita de tentativa e erro. Escapava-mos de casa de manhã e brincávamos o dia todo. O anoitecer era a única regra de regresso a o quartel. Estávamos incontactáveis e ninguém se importava com isso. Nunca fomos controlados pró um telemóvel remoto.  

A geração dos trinta foi obrigada a fazer amigos para se divertir. Não tínhamos Play Station ou X Box. No máximo deliramos com o primeiro Spectrum. Nem sonhávamos com 60 canais de televisão, filmes de vídeo, home cinema, telemóveis, computadores, DVD ou chat na Internet. E na verdade tínhamos amigos, aqueles que encontrávamos sempre no café da esquina a jogar matraquilhos ou snooker. Apreendemos a namoriscar ao som da máquina de flippers. Beijamos pela primeira vez numa matiné da discoteca da moda. Foram os nossos primeiros movimentos de anca. Jogávamos ao elástico e á barra e a bola até doía! Caiámos das arvores, cortávamo-nos, e até partíamos ossos mas sempre sem processos em tribunal. Criávamos jogos com paus e bolas. Inventamos o “bate pé” para aprender a beijar na boca. 

 Batíamos ás portas de vizinhos e fugíamos. Fugíamos de verdade, sem fôlego e com um medo verdadeiro de sermos apanhados. Os nossos pais não nos safavam, eles estavam do lado da lei e da educação com regras. Íamos a pé para casa dos amigos. Acreditem ou não íamos a pé para a escola; não esperávamos que a mamã ou o papá nos levassem. Havia lutas com punhos mas sem processos disciplinares. Ninguém se queixava.   A geração dos trinta provou a liberdade, o fracasso, o sucesso e responsabilidade e aprendemos a lidar com tudo isso. Tudo isto, tornou esta geração muito selectiva.

Não é fácil entrar de novo num grupo de amigos trintões. O processo de selecção é exaustivo e rigoroso. A candidatura nem sempre é aceite. Mas eu sempre tentei misturar grupos de amigos. Gosto da diversidade e da alegria de observar os novos conhecimentos. O choque de personalidades e os novos amores. Num desses grupos, existe como é lógico um grupo de amigas que naturalmente procuram a sua alma gémea. Eu tento ajudar. Apresento e misturo grupos. Aplico a teoria do caos á amizade e relacionamentos. Pessoas que nunca se encontrariam na vida, misturam-se por umas horas. Observam-se e conversam. Riem-se e discutem. È bom saber que em cada novo encontro se consegue proporcionar uma nova história de vida a cada um deles. Nem que seja por umas horas. Mas existe um amigo meu, com alcunha de personagem de soap opera, que por muito que eu tente, não o consigo encaixar em qualquer lado. Nem com ninguém. A conversa é sempre a mesma: 

- Então, o que é que achaste? E muito simpático, não é?

- È verdade, muito simpático e porreiro.

- Sinto aí qualquer coisa no ar!!!!

- Nem penses nisso!

- Desculpa! Porque???

- Sabes com é…ele não é muito bonito! È um bocadinho gordinho…

- Estão sempre a dizer que a aparência não importa e depois é isto….

- Não é bem assim…

- È sim! Querem um homem que as compreenda, que consiga ter sentimentos e partilha-los e quando chega a altura só olham para os abdominais e rabo.

- È mentira…

- Conta-me historias! Contigo o Einstein não tinha hipóteses.

- Ser feio é normal, o problema é não se ter consciência disso.

- Ainda estás a gozar! Eu não acho que existam pessoas feias, a beleza é muito relativa, porque ela esta nos olhos de que a vê

.- Queres que te apresentem aquela minha amiga gordinha do colégio?

- Isso não é justo…-

 O problema de ser pobre é que a pessoa não pode ser feia. O problema de ser feio e pobre é que a pessoa não pode ser chata. Estás a perceber agora?

- A menina desenvolveu um raciocínio muito interessante desde que namorou com aquele palerma do porsche! Mas qual é o problema de namorar alguém feio?

- È uma lei universal, todo aquele que é medianamente feio, se ficar junto de uma pessoa bonita, fica insuportavelmente feio.

- A pessoa bonita és tu??? Sim, senhora….   

Senti pena do meu amigo. Ser feio também é importante. È fundamental. Ser bonito é fácil. Para se ser feio é preciso talento. Quando se é bonito, tudo contribui para a beleza. Sim, porque quando se é feio parece que o universo conspira para sublinhar os piores aspectos do sujeito. O sujeito bonito compra uma roupa qualquer, e tudo lhe cai bem. Você pode comprar um fato com riscas verticais de modo a parecer mais magro e valorizar o seu tronco, mas na hora de vestir a camisa vai verificar que a maldita era transparente e só valorizava mesmo os seus mamilos rosados. E de repente, você parece a Dolly Parton!

Para alem disso, há-de haver uma altura na vida que para alem de ser feio, terá de se habituar a ser igualmente careca e gordo. Quando um sujeito bonito engorda, as mulheres começam a chama-lo de fofinho. Quando se é bonito e se fica careca é se comparado ao Bruce Willys. Se for feio e careca comparam-no a uma bola de bilhar. E depois, há as eternas piadas a que o feio está sujeito todos os dias: 

- Tu és tão feio, que quando tu nasceste o médico meteu baixa psicológica e pediu uma indemnização aos teus pais.  

- Tu és tão feio, que quando eras pequeno a tua mãe amarrava um bife no teu pescoço para ver se pelo menos o cão brincava contigo; 

- Tu és tão feio, que a tua mãe confundiu-te com a placenta, no hospital.  

-Tu és tão feio, que quando tu eras pequeno, a tua mãe dava-te comida com uma fisga e de óculos escuros; 

- A tua mãe não te levava ao Jardim Zoológico, porque ela preferia que as pessoas viessem visitar-te em casa.  

- Tu és tão feio que quando tu nasceste, o médico disse:”Ainda não está pronto, volta para dentro”  

 Lembrei-me do livro do Umberto Eco chamado “A História do Feio”. A fealdade por si, entre os gregos, era quase uma refutação. A fealdade era com frequência considerada o sinal de um desenvolvimento torto ou um desenvolvimento retardado devido à miscigenação. Umberto Eco analisou a conceito de feio pelo ângulo tradicional, como o avesso da beleza. Ele demonstra que a feiúra não inverte os parâmetros do ideal clássico de perfeição. O Feio surge nas mais diversas maneiras: repulsiva, suja, abominável, fétida, ignóbil ou assustadora. Desta forma, divide a fealdade em três tipos: “o feio em si, o feio formal e a representação artís­tica de ambos”. As diferenças culturais só interferem na terceira categoria. Na verdade, o feio revela-se ainda mais relativo que o belo. Por isso, o seu público é mais amplo. E na verdade, também há mais gente feia.   

Mas a subjectividade está lhe sempre inerente. Imagine alguém, recém-chegado à Terra que se deparasse com o quadro “A mulher que chora”, de Picasso: consideraria que os homens tinham aquele rosto como belo. Por que não? È muito complexo encontrar uma definição para a definição de feio. Cada um valoriza a estética a seu modo. A noção de feio varia com o tempo e as modas. Ser feio ou feia, isto é, estar fora do modelo global parece pecado e maldição. O ser humano é muito contraditório. Por isso ser feio ou ser bonito é uma questão subjectiva. Se o amor é cego, então deve-se aperfeiçoar outros sentidos. A consciência, por exemplo. A consciência de cultivar o bom gosto. Como em muitos séculos de história, os estetas proclamaram, e com razão: nada mais belo que o amor ao próximo. Se for esbelta e de olhos verdes, melhor! 

 Ser feio, baixo e nem pouco atlético é a fórmula para a solidão e até desemprego. Cada um, é o que é mais as suas circunstancias. O “cogito ergo sum” de Descartes não é de todo suficiente para analisar a vida. Ao existir caímos em um mundo do qual teremos que lidar com certas circunstâncias. Não escolhemos ser destros ou canhotos, a cor de nossa pele, nosso sexo e muito menos ser considerado feio ou bonito. O ser humano é fruto das ‘circunstâncias’, do imponderável e do ambiente que o circunda. Das pessoas que nos cercam. Daquelas com quem nos relacionamos. Das que nos dão ouvidos e das que oferecem palavras. Daquelas que ao nos encontrarem levam um pouco de nós e deixam um pouco de si. Que nos depuram. Que nos lapidam. Que nos transformam. Mas todas elas, são apenas circunstancias, que podem transformar subitamente o belo em feio ou vice-versa. Esta questão do feio e do belo, levantou-se novamente quando estava a falar com um amigo meu sobre uma entrevista para um trabalho a que ele recentemente concorreu: 

- Então Pedro, como é que correu a entrevista?

- Uma merda…

- Então, tinhas o currículo perfeito para aquele lugar…

- Entrou uma sacana de uma loira antes de mim para a entrevista! Mini-saia e um peito fabuloso! Vi logo que estava lixado…

- Quem é que estava a entrevistar?

- Um gajo dos RH….

- Epá, tenho muita pena, mas esse emprego já era….

- Quando entrei o tipo até estava a salivar…

- Como dizia Buttler Yeats, conheço a recompensa que a beleza concede! Os bonitos têm sempre vantagem… (risos)

- Estás chamar feio, sacana…

- Não.não…mas sabes que a lei natural é assim! A beleza é recompensada e a fealdade é penalizada! As mulheres feias ganham menos 5% do que as bonitas e nos homens a taxa sobe para 10% menos

.- Os homens estão sempre lixados…

- Epá, não é bem assim! È que as mulheres feias têm tendência a abandonar o mercado de trabalho mais cedo e definitivamente! È humilhação a mais!

- E com os homens?

- Bom, para esses a questão da aparência persegue-os durante toda a vida! Boa aparência significa mais oferta de empregos, salários iniciais mais altos e melhores aumentos! Para as mulheres a beleza apenas significa melhores aumentos!

- Estás a brincar, esta loura que eu vi, entrava em qualquer lado! O que não lhe deve faltar são ofertas de emprego…

- Mas para as mulheres feias é um degredo! Podem não ser tão prejudicadas no mercado de trabalho como os homens, mas no mercado de casamentos é um caos!

-… (risos) …Porra! Quem é que quer um bicho! Mas eu depois conto-te a história de um pobre coitado que com a bebedeira, comeu uma gordinha com o período….

- Nem quero saber! Mas estas coitadas atraem os maridos de pior qualidade! Mas se for homem, o facto ser feio não afecta tanto este aspecto da vida! Incongruências! Mas falaste numa gordinha, foi????

- Eu, disse gordinha porque sou simpático….

- Tu disseste, gordinha, porque és um depravado, isso sim! As mulheres caucasianas feias e gordas são as que sofrem mais! Trinta quilos a mais podem custar em média, menos 7% no salário mensal!

- Isso é injusto! Até porque, são elas que gastam mais dinheiro no supermercado e nas pastelarias… (risos) …

- E se for uma negra feia e gorda???

- Não é relevante! Já é discriminada por ser negra….

- Ah! Pois é…se bem que tem aqueles rabos grandes e empinados…

- Esquece lá os teus tempos em Angola…

- Já passou…. (risos) …

- Mas se ser bonito é bom…ser alto e bonito é ainda melhor….

- Isso é algum auto-elogio disfarçado…

- Tu sabes que eu sou modesto! Pessoas acima de um metro e oitenta podem ganhar mais 3.000 euros por ano do que um baixote com um metro e sessenta. Cada dois centímetros e meio a mais revelam um aumento no salário mensal! Altura, raça e sexo são factores importantes no ordenado mensal!

- Loura alta e burra igual a ordenado chorudo!

- Ficaste traumatizado com a loura… (risos) …   

Neste instante, entrou uma loura fabulosa no Café Inn. Os seios, pareciam bolas na natal que recortavam as luzes penduradas na esplanada coberta. O espírito de natal invadiu o Pedro. Sorveu o cappucino de um só trago. Acho que queimou a língua mas nem reparou.   

- Pedro, contratavas esta?

- …huuuumrrrrm….

- Não percebo nada! Parece que tens a boca cheia de favas…

- Acho que queimei a língua…

- E só reparaste agora no incêndio! Então a baba que te esta a correr deve ser para apagar o fogo!

- Bolas, que esta é boa….

- Bonita! Diz lá…bonita! Percebes agora porque é que as pessoas bonitas conseguem os melhores empregos, melhores companheiros e grande parte da atenção!

- Eu percebo tudo o que tu quiseres! Achas que devo lá ir?

- Acreditas nas mil virgens no paraíso? È que isso é um atentado terrorista suicida…

- Porque?

- Lembras-te de eu falar de que as pessoas bonitas atraem os melhores companheiros? E de te falar na importância da altura? Pois é …aquele tipo com um metro e noventa e musculado que acabou de entrar é o namorado…mas eu se fosse a ti arriscava…confiança…

- …hhhhhummmmmmmmmrrrr….

- Queimaste a língua outra vez ou é pura e simplesmente medo?

- Porra! A beleza devia pagar imposto! Estes gajos ficam com as tipas melhores! Eu se quero um Porsche pago mais imposto do que se tiver um Renault…

-Mas tu tens um Renault! No teu caso, tens um Twingo na cama e outro estacionado á porta…

- A Maria é bonita…

- Mas essa ideia dos impostos é engraçada. A beleza implica um custo para todos nós. Uma mulher bonita pode desencorajar uma mulher feia a arranjar-se, por se sentir vencida a partida. E nós, é que suportamos o custo de ter de olhar para ela naquele estado deplorável!

- Estás ver como tenho razão! Aquele gajo ia pagar um balúrdio. E com esse dinheiro subsidiávamos os feios a melhorar a sua aparência…

- Já estás ver se recebes algum dinheiro extra através da Maria… (risos) …

- Cala-te lá, com isso da Maria…

- Mas não ia resultar, a competição ia fazer com os custos e benefícios disparassem em todas as direcções

Acabamos por aqui a nossa conversa. Dirigi-me ao carro estacionado em frente ao rio Tejo. Como é bonito este rio numa noite de Dezembro. E lembrei-me automaticamente do Rio Trancão, para os lados de Sacavém. È verdade, existe o bonito e o feio. E por vezes, o mau cheiro vem como bónus….

Video : Como se tornar Feio?

Comentários»

1. Silvie - Maio 14, 2008

Eu gostei deste texto. É raro haver textos na net que fale abertamente sobre o ser feio. Parece até haver preconceitos sobre colocar fotos de pessoas feias ou assumir que alguem é feio. Não há mal nenhum nisso, são realidades, e quer se queira quer não, são mais influentes na sociedade do que se possa pensar (ou querer). Gostei da abordagem ao assunto. Cumprimentos :)