Conversas e Engates em Hipermercados Outubro 25, 2007
Posted by joão carlos santos in Road Stories.add a comment
Sábado, e de repente, o Fernando decide que o jantar ia ser na casa dele. Como é lógico, quando um solteiro decide fazer este tipo de convite, só há uma saída possível. Ir imediatamente, comprar comida comestível e dentro do prazo a um qualquer hipermercado. Problema seguinte, quem iria ás compras. Olhei para a Cláudia, e com um ar resignado, anuísmos pesarosamente. Era melhor do que ficar a lavar a loiça da semana passada. Eu tinha-me parecido ver alguma coisa a mexer-se no lava-loiça. Não me estava a apetecer perturbar aquele pequeno ecosistema que se estava ali a criar. Gosto muito de animais. Mesmo que sejam bactérias mutantes. E por isso, lá fomos nós directos ao Continente do Fórum Almada. Arrumar o carro. Escadas rolantes. Um imenso corredor. E toca a entrar no Continente.
Eu sempre abominei hipermercados. Assim como os shoppings, na sua generalidade. Para mim é uma visão do purgatório. Pelo contrário, adoro mercearias. Nasci e cresci num típico bairro lisboeta e sempre me habituei ao conceito de Mercearia. Revendedora de gás e “dependência bancária”, uma vez que muitos velhotes lá trocavam o seu parco cheque da reforma por um pouco de dinheiro. Ali se vendia de tudo um pouco. Em poucos metros quadrados podíamos encontrar de batatas a garrafões de vinho, de carrinhos de linha aos livros do Patinhas em segunda mão. Mais do que um estabelecimento comercial, era uma loja familiar, onde clientes e funcionários se tratavam pelo nome e conversavam sobre os problemas do dia a dia. Substituía muitas vezes o psicólogo e a terapia familiar. Em conjunto com a padaria, a mercearia cumpria uma certa função social no bairro.
Ir a um Hipermercado é essencialmente, chato. Um ajuntamento de pessoas, ofertas em catadupa, um monte de produtos que dificultam a escolha e a compra. O stress de estar sempre a comparar preços, para justificar-mos a nós próprios a razão da nossa ida ao inferno. Mas dessa vez foi diferente. A proposta era diferente. Não havia uma lista de compras extensa. Era só comprar comida para uma refeição. Simples e indolor. Eu, que costumo sempre palmilhar os corredores mais desabitados e os espaços com menos gente, podia finalmente andar sem rumo pelo hipermercado. Podia andar de um lado para o outro, contemplar as pessoas, ouvir as conversas, e enfim perceber esta realidade do hipermercado. No nosso dia-a-dia, quando se vai a um qualquer supermercado o que queremos é manter a nossa visão periférica de modo a que ninguém dê por nós, nem nos nossos pensamentos e ideias. A Cláudia interrompeu o meu momento de contemplação.
- João, tens uma moeda para o carrinho?
- Deixa ver. Odeio esta coisa da moedinha. Nunca se tem uma moedinha quando se vem ao supermercado. È inevitável. Ou então nunca é a moeda certa. E ainda fico mais irritado, quando damos a moedinha ao arrumador que depois nos faz falta cá dentro!
- (risos) … Deixa estar, eu tenho aqui uma…
- È como aquela mania que havia no aeroporto de Lisboa, de termos de colocar uma moedinha nos carrinhos, para levar as malas. Vinhas do estrangeiro e tinhas que ter um euro…ou então, mala ás costas.
- Importaste de levar o carrinho. Estes carrinhos de compras estão enormes. Parecem um SUV.
- Realmente, estão cada vez maiores. Li em qualquer lado, que os carrinhos de compras nos nossos dias são três vezes maiores do que na década de 70.
- Os preços sobem e os carrinhos aumentam de tamanho. Isto não tem lógica…
- Possivelmente, é para as pessoas se sentirem envergonhadas de irem para a fila com o carrinho quase vazio. Obriga-as a comprar mais. Deve ser a psicologia de supermercado…
- Eu dou-te a explicação feminina. Eu como trabalho, não posso vir tanto ao supermercado, como a minha mãe vinha. Por isso, quando venho levo o máximo possível…
- Também acredito. Mas olha para o tamanho e largura destes corredores. A culpa é dos corredores. Olha bem esta lógica. Corredores maiores exigem maior investimento em terreno, logo os preços sobem, mas os tamanhos dos corredores permitem carrinhos de compras maiores. Mais carrinhos; mais compras. E os tipos ganham ainda mais.
- Que explicação maluca, João…
- Não é assim tão parva, Cláudia. È que os tipos nem precisam de investir muito mais no terreno. Senão repara, hoje em dia toda a gente vem com a sua carrinha ou SUV ao supermercado. Significa que tem mais espaço para levar as compras. Mas isto implica parques de estacionamento maiores, o que fez com os hipermercados se deslocassem para longe do centro das cidades, onde os terrenos são mais baratos.
- E o que é que isso tem a ver com o aumento dos carrinhos?
- Se as pessoas fazem um percurso maior, tentam ao máximo encher a despensa e evitar outra visita.
- Eu acho que os carrinhos aumentaram o tamanho para levar as criancinhas dentro deles. Há muito mais mães solteiras do que antigamente…tem que por os putos nalgum lado…!
- Nesse caso deviam fazer os carrinhos com umas algemas… (risos)
- E alem disso, hoje em dia toda a gente tem cartão de crédito. Compra á vontade! Toca a encher os carrinhos. Estes tipos agora até vendem plasmas e frigoríficos…
- … (risos) … gostava de ver um tipo tentar carregar com um frigorífico dentro deste carrinho…-
Bom, levamos estes congelados de salmão…e só por no micro-ondas…-
Não sei se toda a gente gosta disso. Podemos levar vários e cada um come o que gosta…
- Está bem…
-Estás a ver, esta é outra razão para o aumento dos carrinhos. Antigamente tínhamos que comer todos da mesma refeição. Tínhamos de chegar a um acordo tácito. Hoje cada um escolhe á lista. Em vez de uma embalagem de salmão, levamos dez embalagens de refeições congeladas. Malditos carrinhos…
- Carrega e cala-te …(risos)
- Oh! Cláudia …olha-me aquela gorda ali com aquele carrinho…ENORME…
- Ora, ai está! Percebes-te agora a questão da largura dos corredores e do tamanho dos carrinhos. Tudo aumentou de tamanho porque as pessoas também aumentaram o seu tamanho… (risos)
- O mundo é dos gordos! Há cada vez mais pessoal gordo…Olha ali a senhora da peixaria…
- Há culpa é dos tipos do Mcdonald´s, com aquelas doses gigantes. Toda essa porcaria da fast food faz o pessoal engordar. Não viste o filme Big Size Me?
- Estas a dizer que o Mcdonald´s tinha uma estratégia mundial para nos engordar! Logo estamos mais gordos porque nos estão a dar mais comida! Mas uma dose maior não significa uma refeição maior. Tu podes reparti-la com outra pessoa. Assim como uma dose pequena não significa uma refeição menor, dado que podes pedir duas doses.
- Isso não funciona assim, eles querem-nos viciar em comida…e conseguiram!
- Não concordo, Cláudia. As empresas não vão dar doses maiores aos mesmos preços, só porque querem. Era um suicido financeiro. As pessoas, é que exigem doses maiores. E no mercado da livre concorrência, o consumidor manda. As pessoas não querem ser mais gordas, mas querem comer mais.
- Mas isso é uma estupidez. Como é que alguém consegue fazer isso?
- As pessoas, hoje em dia, têm mais rendimento e podem perfeitamente comprar mais comida. Mas também podem optar por comprar comida de melhor qualidade e frequentar melhores ginásios. A escolha é delas. A maioria tem optado por ficar mais gorda.
- Sabes que os portugueses gostam de uma boa feijoada e de um saboroso cozido a portuguesa. E isso dos ginásios é só durante dois ou três meses antes do verão…
- Continua a ser uma escolha individual! Na minha opinião a culpa é dos avanços na medicina e dos produtos “light”…
- Os produtos “light” e que são culpados de sermos gordos? E é claro que os médicos dão uma ajudinha….TU NÂO ESTAS BOM!
- Engraçadinha! Com os avanços na medicina que permitem baixar o colesterol e com os milhares de dietas milagrosas, a esperança de vida aumentou. Ser gordo hoje é menos perigosos do que era á vinte anos. O risco é menor e o pessoal tem menos medo de engordar.
- E, portanto, os produtos “light” engordam mais do que os normais?
- Hoje, a menina está com uma veia piadista! Se estes têm menos calorias por dose, as pessoas consomem mais porque pensam que não os vai engordar tanto. Ilusão pura! Se não houvesse tanto gelado “light” as pessoas não os comeriam tão frequentemente no Inverno. Nem no Verão! Acabamos por comer mais só porque são “light”…
- Por falar nisso, leva aí uma Coca-Cola “zero”…
- Sabes que o gás também engorda…
- Já chega, chato!
Acho que se pode saber muito sobre uma pessoa apenas por aquilo que a vemos descarregar do cesto de compras no balcão do caixa do hipermercado. È necessário observar. Tudo se mexe e nos interpela oralmente nos hipermercados. As raparigas das promoções a convidar-nos para experimentar tudo e mais alguma coisa. Filas por todo o hipermercado. Era de esperar, tarde de sábado, pessoas com tempo supérfluo para gastar, uma multidão seleccionando o vinho para o jantar da noite, casais de namorados, crianças, muitas crianças. Em carrinhos, muitos carrinhos.
Os hipermercados são também um ponto de encontro. Na secção das verduras e dos frutos bancas de frutas, reparei num casal e numa senhora com a sua neta: “De um dia para o outro deixaste de aparecer lá em casa, vê lá se apareces!”. Fui dar mais uma volta pelo supermercado, passar pelos mesmos corredores por onde já havia passado. Reparei numa menina enfadada, implorando para ir embora, aguardando que a mãe escolhe-se um pacote de cereais. Uma senhor que usufruiu de outra amostra de café, para fazer uma pausa nas compras.
Na fila do Talho, um pai que ali se devia encontrar parado há mais três quartos de hora, com o carro apinhado de compras, desatou aos berros com o miúdo para aguentar o cocó.
“ Já te avisei que quando vais à natação, não podes engolir toda a água da piscina, mais a mais, tratando-se da água da piscina do Benfica”
No corredor do lado, um grupo de miúdos abriam pacotes de bolachas e devoravam-nos como se não houvesses amanha. È claro que abriram também uma garrafa de litro de Sumol de laranja. As bolachas enchem. Entretanto, uma senhora de cerca de quarenta anos deixava um pacote de salmão congelado, que não lhe apetecia levar consigo, ao lado dos chouriços de carne de Seia. As pessoas tem uma tendência a reordenar os produtos nas prateleiras e corredores dos supermercados conforme o seu belo prazer. Esta senhora achava que um cozido a portuguesa com aquele belo chouriço deveria ser acompanhado de salmão. Quem veio atrás de certeza que agradeceu a ajuda.
O corredor dos lacticínios foi uma outra surpresa. Já não existem praticamente verdadeiros iogurtes à venda. Os de aroma simples ocupam uma prateleira introspectiva num espaço reduzido. Iogurtes com todos os sabores, contra o colesterol, low fat, com cereais e para activar o nosso intestino delgado e grosso. Emagreça com poucas calorias ou emagreça definhando pela diarreia – eis o novo slogan dos iogurtes. De iogurte já tem muito pouco. Os iogurtes a sério, passaram apaticamente a historia. Assim como leite gordo, estão ambos em vias de extinção. Temos que nos aguentar com o aguado líquido branco do “meio-gordo” ou “magro”. O leite revela a tendência da sociedade. Temos que ser magros ou no máximo “meio-gordos”.
O próprio hipermercado revela-se uma passadeira de modelos masculinos e femininos, em busca do par ideal. Esqueçam as discotecas nocturnas. Os hipermercados são os novos pontos de engate. È o único local onde a grande parte da população feminina, vai quase sempre sozinha. E além disso pode-se prognosticar os seus desejos, por aquilo que vão pondo no carrinho. São engates de uma noite mas tudo é eterno enquanto dura. Algum homem deve ter descoberto que este é o único local onde as mulheres menos esperam ser engatadas. Tem as suas defesas em baixo. E esse mesmo homem espalhou a noticia a confraria masculina.
Reparei num tipo, em particular. Focalizei o alvo dele. Uma loira de olhos verdes. O tipo, bem apresentado, fato e gravata de bancário em fim de dia. Reparei no carrinho de compras do sujeito. Tinha uma embalagem com um bife. Não era um kilo, era somente um bife. Sinalização do tipo – “ Sou solteiro e vou comer sozinho. Coitadinho de mim.” Vi igualmente, duas outras três peças de fruta biológica. Indicação tipológica de – “ Sou saudável e adoro o ambiente”. Reparei numa tábua de queijos suíços e franceses junto a uma garrafa de vinho tinto Esporão. Advertência gritante de – “ Sou um tipo abastado com gostos requintados. Imagina-te ao pé mim junto da lareira no meu condomínio privado”. Divisei igualmente uma série de produtos de beleza de onde sobressaía uma caixa de cera depilatória. Anotação subliminar do género – “ Sou metrosexual e cuido do meu corpo.” Por fim reparei, num livrinho estrategicamente colocado no seu carrinho, da Rita Ferro, denominado Uma Mulher não Chora. Indicativo de mensagem subliminar de – “ Eu estou em contacto com o meu lado feminino, e não tenho vergonha disso”.
O carrinho de compras daquele sujeito era uma autêntica campanha de marketing sobre o imaginário feminino. Um best off das preferências femininas sobre o género masculino. Nem uma caixa de preservativos, nada de comida enlatada ou pré-congelada. Aquele carrinho apelava ao instinto materno, ao sexual, ao intelectual, e ao interesse material. Aquele homem sabia o que estava a fazer. Ao fim de o ver a rondar a loira por varias vezes, ouvi a técnica de aproximação:
- Desculpe, sabe se o Sushi congelado tem de ir ao Micro-ondas?
- …(sorriso) è só colocar durante dois minutos no programa para descongelar.
- Obrigado. Já me salvou de um Sushi grelhado…
- …(risos)
Até um macaco sabia a resposta aquela pergunta cretina. Mas ele passou a imagem pretendida. Sozinho, inocente e a necessitar urgentemente de ajuda. Um claro apelo ao instinto maternal da loura. Decidi seguir o tipo, que por sua vez seguia discretamente a loura. Olhei para trás a ver se alguém me seguia igualmente. Não queria que aquilo parecesse um comboio de gente como numa qualquer festa popular. Chegamos a secção dos detergentes. O sacana avançou novamente.
- Olá. Estamos sempre a encontrar-nos. Daqui a pouco você pensa que eu ando a segui-la… (risos). Juro que não sou da judiciária…
- …(risos)
- Vou-lhe pedir, outra vez ajuda, este detergente serve para roupa preta? È que eu detesto aqueles que deixam a roupa preta esbranquiçada…
- …(risos) Esse que tem na mão não vai servir. Isso é lixívia em pó… (risos)
- Lixívia! Bem mais esbranquiçada não poderia ficar …(risos) …Qual é que seria melhor?
- Leve este que é próprio para roupa preta…
- Você já me salvou de uma refeição e de um guarda-roupa queimado…Deve trabalhar do INEM.
- …(risos)
- Se a minha roupa preta ficar branca, eu vou-lhe bater a porta no Carnaval, e você tem de sair comigo vestido com essa roupinha…
- …(risos) Prometido…
Para meu grande espanto, o tipo virou-lhe as costas e seguiu com as suas compras. Nada de números de telefone. Nada de convites. O tipo tinha graça mas não se armou em engraçado. Grande diferença. Aqui havia coisa. O tipo devia ter uma estratégia final. Continuei-o a seguir por entre mais uns corredores. Parou durante uns minutos juntos das caixas de pagamento. Quando ele, viu a loura a dirigir-se para uma caixa, foi colocar-se calmamente na mesma fila. Não imediatamente a trás dela. Deixou intercalar um velhote entre os dois.
- Eu juro por tudo o que me é mais sagrado que não a ando a seguir…(risos)
- Coincidências …(risos)
- Vai levar morangos? Se soubesse tinha comprado chantily….
- Toda a gente viu o filme.
- O meu irmão ofereceu-me o DVD no Natal e eu ainda nem o vi…-
Eu vi no cinema a muito tempo…já nem me lembro da historia…
- Gosta de Sushi?…
Já estava. Sushi e um DVD das Nove Semanas e Meia iam ser o jantar daqueles dois. Subtil estratégico e maquiavélico. Os engates nos hipermercados são como numa savana africana. Mas aqui os leopardos não se escondem em cima de uma árvore, rondam por entre os corredores dos detergentes e pré-congelados. A Cláudia pareceu de repente com uma série de compras equilibradas nos seus braços.
- Por onde é que andaste? Eu aqui a carregar com as compras nos braços e tu a passear o carrinho de compras vazio…
- Estive a fazer um estudo sociológico…
-E eu a fazer musculação e piscinas a tua procura! Deixa-me mas é por as compras dentro do carro. Escolhe uma fila com pouca gente…
- Estás maluca!!! Não há! Estão aqui Almada e arredores em massa, e decidiram todos penhorar o salário do mês seguinte nas compras deste mês!
- Vamos para esta…
Ouvir as conversas nas filas dum hipermercado é delicioso. As pessoas falam de tudo e com todos. Na fila, as pessoas tendem a concentrar suas opiniões em conceitos rápidos e concisos, porque a fila anda. Os conceitos são curtos e fortes. Tem no máximo 30 segundos para expor a sua ideia. Depois ou alguém se mete na conversa ou a outra pessoa desliga a sua atenção. O melhor é que se fala sem censura. As pessoas não se conhecem e, portanto, não se preocupam se suas ideias estão ou não adequadas. A Cláudia é daquelas que gosta de fazer conversa nas filas:
- João, já reparaste bem no tempo que perdemos nestas porcarias de filas?
- Isto só acontece porque as filas deviam funcionar ao contrário!
- Como assim?
- O último a chegar ocupava o primeiro lugar da fila em vez de ir lá para trás.
- Estás maluco! Isso é ridículo…
- As pessoas andam sempre a percorrer as caixas para ver qual é a que tem menos pessoas. Perdem tempo. E ter menos pessoas pode não significar, perder menos tempo.
- Mas segundo a tua teoria, o segundo cliente da fila nunca chegava a ser atendido. Ia sempre meter-se alguém a sua frente.
- A não ser que se chegue no preciso momento que o ultimo cliente acabou de pagar, ia-se sempre sendo empurrado para o fim da fila…
- Havia sempre pessoas a desistir…
- Exacto o que alterava o cumprimento da fila. Ficava mais pequena. Entrar na fila é fácil. Difícil é tomar a decisão de quando é que se deve sair da fila. As pessoas acomodam-se e não procuram filas mais pequenas. Logo as filas não são eficientes.
- Tu as vezes enervas-me um bocadinho com essa conversa da treta…
- Anda mas é para a frente, que está um fulano a ver se segue a minha teoria…
Mais a frente na fila, alguém se tinha esquecido de pesar a fruta. Mais uma demora. A Cláudia começava a ficar vermelha:
-Porque que raio existem pessoas que enfiam a fruta no saco sem a pesarem?
- Se calhar pensam que se não pesarem a fruta não pagam … ou pagam menos…!!!
- Agora, lá vai esta chamar o moço das frutas, para pesar o raio do melão…
- E o nosso geladinho a derreter…
- Devia-lhe enfiar com o melão…
-…no saco…no saco….
As mulheres ás vezes ficam muito agressivas nas filas de qualquer estabelecimento. A sua tolerância é mais baixa do que a dos homens. Especialmente, se quem as está a fazer perder o seu valioso tempo for uma outra mulher. E se essa mulher for bonita, ainda pior. Não havia nada a a fazer, a Cláudia já estava possuída. E as coisas, a partir daquele momento, só podiam piorar. Chegou finalmente a nossa vez. Aparentemente, a menina da caixa não era inexperiente. Já era uma benesse dos céus. Assim que o leitor óptico ficou enfim desimpedido, observei a passerelle mecânica onde desfilavam as nossas compras de grupo. Enquanto a menina processava as nossas compras com uma celeridade taquigráfica alucinante, percebi que aquele conjunto de itens dizia muito a respeito do grupo que iria jantar. Mas a menina da caixa interrompeu o meu raciocínio:
- Quantos sacos quer, menina?
- Estamos aqui os dois, e ela pergunta-me a mim? Tu deves estar aqui como uma jarra de flores. E depois queixam-se da desigualdade de oportunidades! Quero cinco….
- A menina sabe que tem de pagar os sacos?
- Tenho que pagar os sacos? E se eu não tiver dinheiro? Levo as compras na mão?
- São regras…menina!
De forma discreta, mandei calar a Cláudia. Eu concordava com o facto de os sacos passarem ser pagos. Sempre foi contra as pessoas que levavam as dezenas de sacos dos supermercados. Dentro de outros sacos, nos bolsos, debaixo do sovaco, dentro das cuecas; enfim uma pilhagem aos sacos. Nunca percebi, para que raio, queriam aquelas pessoas, tantos sacos. Ainda me lembro de ver na casa do meu avô, sacos de plástico que depois de devidamente lavados eram postos a secar para levar á mercearia nas próximas compras. Nessas alturas, a minha avó estendia-me os 4 sacos de plástico e eu, não disfarçando o embaraço, lá os ajeitava no bolso, quando ia com ela ás compras. Entendia ela, que assim é que era, porque era assim que sempre fora. A minha avó foi a percursora do ambientalismo bairrista.
Mas os problemas não se ficaram por aqui. A porcaria do cartão de crédito não funcionava de maneira nenhuma. Eu fui levantar dinheiro enquanto a Cláudia ficava na caixa do Hipermercado. Ela pagou e ficou a espera do troco. Mas a empregada, continuou a abusar da nossa paciência.
- Vou ter de ficar a dever-lhe 2 cêntimos, menina!
- Não.
- Desculpe. Como não?
- Não quero que me fique a dever 2 cêntimos.
- Mas eu não tenho 2 cêntimos para lhe dar!
- Nesse caso, fico eu a dever-lhe 3 cêntimos.
- Ai desculpe, mas …
- Terá de resolver o problema como entender.
- Bom… então vai ter de esperar.
-… (silêncio).
- Olhe, ainda aqui estou.
- A minha supervisora já aí vem.
-… (silêncio).
- Pronto, aqui tem os seus 2 cêntimos. Mau feitio….
- Pois tenho, pois tenho, tenho mau feitio! O cartão não passava, tive que pagar um saco com publicidade ao hipermercado e ainda me iam ficar a dever dois cêntimos. Haja paciência. Boa Tarde!
A Cláudia é assim. È por isso que eu gosto tanto desta minha amiga. Já só faltava o regresso a casa do Fernando. Estacionar o carro, carregar milhares de sacos até casa, arrumar as compras e no fim observar os despojos de guerra espalhados pelo chão da cozinha. Sacos de plástico por todo o lado que se começam a dobrar apenas para se descobrir que estão todos rotos e que não dão para reutilizar.
Mas, porque raio, é que não fomos jantar fora?
Music: FooFighters “Resolve”



