2007 – Uma Odisseia Astral Outubro 13, 2007
Posted by joão carlos santos in Road Stories.add a comment
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O dia não tinha começado bem para o José. Ele já sabia. Tinha, como todos os dias, observado a secção de astrologia do jornal costumeiro. José não acreditava em nada daquilo. Mas estava viciado em vislumbrar um bocadinho do futuro, todos os dias. Alem disso, acreditava que uma consciência demasiado lúcida era uma doença. O almoço com a Teresa só veio confirmar o inevitável.
- A gente não combina, José. Peixes e Capricórnio são incompatíveis.
- E tu queres terminar?
- Sim. Sem duvida.
- Já ouvi desculpas melhores, tipo, “o problema não é você, sou eu”. A gente sabe que é mentira, mas pelo menos já conhece o padrão…
- Não é desculpa, são os signos, eles não combinam.
- Ouve lá Teresa, as bactérias têm signo?
- Claro que não! Não sejas parvo…
-Por muito poucas horas que viva, ela nasce sob influência de algum astro, ou não?
- Não me vou dignificar a responder a tal parvoíce.
- A vida surgiu na terra na forma de um ser unicelular. Este ser unicelular tinha signo? Porque se eu, descendente dele, sou de Capricórnio, imagino que o pobre coitado também tinha o mesmo direito.
- Por favor…
- E o Homem de Neanderthal, ele seguia o horóscopo “ocidental” ou o chinês?
- Já é demais! Ele não seguia horóscopo nenhum! Não tinham como estudar isso, nem tinham intelecto suficiente.
- Então, só passamos a “ter” signo a partir do momento que alguém “descobriu” a influência de corpos celestes na nossa personalidade, é isso?
- Er…é, acho que sim…pode ser! Por isso mesmo, as bactérias, o ser unicelular e o Neanderthal não tinham signo.
- Calma lá, eles não tinham ou não sabiam que tinham?
-Porra! Não tinham e pronto!
- Ah, então a astrologia só contempla a nossa espécie humana? O resto dos animaizinhos não se pode divertir com isto das compatibilidades…
- Ai, que chatice, tu não entendes, pois não?
- Não, não entendo. Estou a tentar imaginar, Deus a observar uma fêmea do Homo Erectus a dar a luz ao primeiro Homo Sapiens e a dizer “tu que agora possuis um polegar opositor que te permite o movimento de pinça e que também possuis raciocino lógico ,passas a ter direito a 12 tipos de personalidade de acordo com o dia em que nasceste. Que dia é hoje? 28 de Dezembro?,Nesse caso determino que sejas Capricórnio e que sejas completamente incompatível com qualquer mulher de Peixes. Que coisa engraçada que eu inventei agora…vai dar mais que falar do que os dez mandamentos…
- Que chatice! Nós não vamos terminar? Podemos ir embora? Agora?!
- Esta bem, eu ia sugerir que tu tentasses uma relação com o meu cãozinho, ele é de Leão, combina muito com Peixes e, lembre-se, ele descende do mesmo ser unicelular que você…
- Eu tinha razão…
O almoço acabou aqui. A relação com peixes, também. Ainda bem que José tinha comido carne. Não fosse a incompatibilidade ser total e provocar-lhe uma tremenda diarreia. A relação com Teresa tinha sido boa. Tinha sido esta rapariga a apresentar ao José a pomada Voltaren. Não gostava muito de ser contrariada. Porque tinha sempre razão. Tudo aquilo parecia um bocadinho estranho e incompreensível. Aparentemente, ela parecia sempre que não tinha um rumo definido e demonstrava uma completa abstracção do lado prático das coisas. Mas depois, o José percebeu que as coisas não eram bem o que pareciam. Ela vivia numa realidade alternativa. Ela moldava-se de acordo com a ocasião, de acordo com as pessoas, e demorava muito a separar essas impressões dos seus verdadeiros sentimentos. Era como se vivesse emoções alheias. Era uma mística, extremamente sensível. Gostava de roupas confortáveis e de tecidos naturais, como o algodão. Adorava roupas indianas ou década de 70, usava perfumes fortes e maquilhagem carregada. Era uma doçura. Até nos beijos. Era um bocadinho distraída e indiferente, por isso o José achou que era melhor roubar um beijo e esperar uma estalada do que contar com a iniciativa dela. Infelizmente, ele não teve imaginação necessária para manter a relação. Afogou-se no mar mas ainda conseguiu ver a praia. Esqueceu-se foi da bóia.
Este era o fim de um ano de 2007, inacreditavelmente absurdo. Para o José, passava-se alguma coisa de errado. Ainda se lembrava de ter consultado em Janeiro a analise numerologia do ano de 2007.Somou: 2+0+0+7. O resultado foi o número 9. O que significava um ano será repleto de energia. Pessoas mais optimistas, empreendedoras, generosas e solidárias. O ano da vibração da energia associada ao bem e ao amor. O Horóscopo Chinês dizia que o ano do Porco seria excelente. O Jorge pensou – “ Estes gajos andam a brincar comigo”. O ano de 2007 não tinha sido auspicioso para ele. E na parte sentimental, em particular, tinha sido uma autêntica desgraça.
Tudo começou com a Gabriela. Foi a primeira da odisseia astral. Era uma típica mulher do signo Carneiro. Estava a acabar o curso no CEJ. Queria seguir para o Ministério Público. Ela tinha a mania de chegar a atropelar tudo e todos com o capricho de ser sempre a primeira. E de verdade, era a primeira. A primeira maluca que o José teve o desprazer de encontrar. Queria tudo para ontem. E obrigava o pobre a viver como se estivesse permanentemente numa antestreia teatral. O palco era a sua vida, e a imaginação era fértil e rondava o paranóico. Elogios eram raros. E em qualquer discussão, o máximo que o José podia esperar era um seco “para bom entendedor, meia palavra basta”. Ficava possuída, quando o José a corrigia ou meramente imaginava que ele a estava a controlar. Obstinada e teimosa. Teimava até bater com a cabeça na parede e depois chorava porque era uma mariquinhas. E quanto á questão do mau perder, nem se fala. Quanto ao sexo, quando beijava era como se o José fosse atacado por uma boca ávida, e como tanto fogo tem que ser apagado, a seguir vinha o resto. E no fim da noite era sempre, o mesmo. “Muito bom, vamos começar outra vez” – dizia ofegante. O José emagreceu e desistiu.
A Ana foi o acidente seguinte. Era decoradora de interiores e do signo Touro. Conheceu-a no IKEA, quando estava a redecorar a sua nova casa. Esta menina gostava de ser dona do mundo. Quando o José se distraía, já ela lhe tinha invadido todo o seu mundo privado, mas sempre com uma boa desculpa. Adorava provocar o José, fazê-lo ficar tudo entusiasmado e, depois sair quando ele menos esperava. Charme e fascinação eram as armas desta ardilosa menina. Mas usava tudo isto tão persistentemente que se tornava numa chata insuportável. Era gulosa, mas no sexo, era uma miséria. Uma coisa horrível. Aliás, o José sempre desconfiou, que o facto de serem do signo touro se devia ao facto de serem constantemente encornados por serem horríveis na cama. Nos preliminares, era aqueles beijinhos carinhosos, sem pressa, como que para apreciar uma paisagem bucólica. Um bocadinho, para o chato. Era como estar a ver um filme do Manuel de Oliveira. E sempre insaciável…de comida. No fim de fazerem amor era sempre aquela conversa – “ Estou com fome, passa-me uma fatia de pizza”. O José recuperou o peso perdido com a Gabriela, deixou-lhe o telefone da Telepizza e desapareceu ao fim de um mês.
O passo seguinte, foi tropeçar numa Gémeos. Não eram duas, era somente uma. Mas pareceram-lhe, dez. Chamava-se Beatriz. Era actriz numa novela da TvI. Esta rapariga era uma canseira. Odiava ficar parada e fazer coisas repetidas. O José voltou a emagrecer dez quilos nesse mês. Ela adorava contar uma história, sobre si mesma. E o que ela gostava de falar! E o José ficou igualmente surdo. Tísico e Mouco. Era uma confusão. Não sabia o que queria e era completamente superficial. Curiosamente, não era loura. Mas não percebia uma indirecta. Era como namorar com duas pessoas mas fazer sexo só com uma. Mas nisto do sexo, o José sempre ficou desconfiado. Sempre lhe pareceu que para ela, o facto de ele ser o padre da paróquia ou um velhinho com Alzheimer, lhe era indiferente. Ela queria sexo. Ponto final. Mas até aqui ela era irrequieta e faladora. Durante o beijo gostava de brincar e de morder a língua. E interrompia constantemente, para falar sobre alguma coisa. Quando acabavam de fazer sexo era com se nada acontecesse. Pegava no controlo remoto e ponha-se a ver o Dr.House. Quando decidiu acabar a relação o José pensou que tinha mudado de signo – passara a ser touro. Tal era a quantidade de chifres que ostentava.
A Paula era cabeleireira. O José conheceu-a quando a apanhou inadvertidamente a masturbar-se num gabinetes de prova de roupas da Saccor Brothers. “Com tantos dedinhos a trabalhar só pode ser Caranguejo” – pensou o José. Conversa puxa conversa, e ela começou logo a chorar e a dizer que não tinha namorado à mais de três anos. O José sempre fora uma alma caridosa. Erro crasso. O dinheirão que o José gastou em lenços de papel. Ela chorava constantemente e tinha uma maldita memória de elefante. Aquela maldita insegurança combinada com a sacana da memória dava cabo da cabeça do pobre José. Tanto sentimentalismo e complexidade na mesma pessoa. Ele tinha de ser todo carinhoso. E mimoso. Mas as vezes, era difícil. Extremamente difícil. Ela vestia-se muito mal, porque mesmo aos 35, ainda era a mãe que lhes escolhia a roupa. Não havia roupa que lhe ficasse bem. Talvez devido ao facto de ter umas mamas enormes e flácidas e usar aqueles pensos higiénicos ultra com abas de abadessa. Quanto aos sapatos, convinha serem os mais fechados possíveis devido ao odor acidificado que lhe provinha dos enormes pés. A visão que provinha daquela imagem não era a melhor. E no sexo era sempre o mesmo. Ela era uma passiva. Beijava como o José bem entendia. Era-lhe indiferente. Mas quando ele tentava algo mais forte, ela fugia a sete pés. Era de um romantismo extremo. Cada vez que faziam sexo, ela perguntava quando era a data do casamento. Um dia, o José saiu para ir falar com o padre e nunca mais ninguém o viu em Campo de Ourique.
De seguida, conheceu a Sofia num congresso do PSD, tinha ela tinha acabado uma relação secreta que mantinha com o Pedro Santana Lopes. O José decidiu ser o seguinte. Ao princípio, o José pensou que tinha entrado nalguma relação Sadomasoquista. Ela era dominadora e de chicote na mão. “Ai, o meu rabinho”- pensou o José. Superior em tudo. Superior a todos. Uma autentica rainha do baile. Vaidade em todos os poros do corpo. Na ideia dela, ela era a ultima coca-cola gelada no deserto. Mas na verdade, ela era muito leal. Para isso, bastava o José entregar as chaves do coração, abrir as portas da sua consciência e abrir mão de si mesmo. Fácil, não é! Para irrita-la também era fácil, bastava o José ignorar as suas histórias de glória ou fazer uma pequena critica. Nesse caso, dá para ver por é que o signo é leão e não ovelha. A rapariga tinha um show mas deixava o José participar. È claro que a coreografia era dela. No sexo, como em tudo gostava de mandar. O cabelo estilo emigrante não ajudava a estimular o José, mas ele fazia um esforço. Os beijos eram sempre ao melhor estilo Holliwoodesco. O famoso beijo cinematográfico, daqueles de dobrar a espinha, em plena Rua do Carmo. O José sempre achou que ela fazia sempre uma pequena pausa na esperança de ouvir uma calorosa salva de palmas dos transeuntes. E claro, um pedido de encore. Tinha de ser assim, ela teria sempre de ser inesquecível. Adorava sexo anal mas as malditas hemorróidas estragavam sempre tudo. Adorava umas palmadas no rabito, mas dizia sempre que o José não usava força suficiente. Um dia o José comprou uma pá das obras. Assunto resolvido. Ela era um bocadinho Sado. Mas sobretudo egocêntrica. Depois do sexo o José tinha sempre de dizer que ela tinha sido a melhor de sempre. De toda a sua vida. Um dia, ele enganou-se, chamou-lhe Manuela e ela espetou-lhe com uma candelabro na cabeça. Depois de uma semana no hospital, nunca mais ouviu falar dela.
Resolveu experimentar uma relação mais moderada. Apostou numa Virgem. Chamava-se Maria, e tudo batia certo. Era costureira e trabalhava no atelier da Ana Salazar. A primeira vista, o José pensou que desta vez se tinha metido com uma obsessivo-compulsiva. Nunca tinha visto ninguém tão organizado e metódico. Tudo tinha uma ordem e lógica em casa. A mania crónica das limpezas era demais. O José, até tinha medo de entrar no WC. Tudo isto, porque era também enormemente hipocondríaca. As coisas não eram limpas, eram desinfectadas. Não valia a pena dizer que gostava dela. Ela dava mais importância ao que ele podia fazer por ela. Como por exemplo, fechar sempre a paste dos dentes. Apesar de tudo tinha a mania que era muito dura, mas por dentro era oposto. Mesmo no sexo era organizada e metódica. Antes de qualquer contacto, o José teve de fazer cinquenta exames médicos. Beijinhos, só debaixo dos lençóis, onde ninguém pudesse observar. E era um beijo por fases, com tudo muito bem documentado, com mapas, gráficos e estatísticas. Para alem disso, tinha a mania de guardar os preservativos usados para não esquecer de quantas já vezes tinham feito sexo. Tinha pavor de sexo oral pois receava engasgar-se mas por outro lado costumava rapar os pêlos púbicos em forma de coração. Por vezes, adormecia durante o acto sexual. O José poderia jurar que a apanhou nas dunas a masturbar-se com revistas da Mónica e do Cebolinha. Pelo menos nas dunas, não era necessário lavar sempre os lençóis depois de fazerem sexo. Era como fazer sexo num hospital. um dia, o José apanhou uma ligeira constipação , e ela com medo da gripe das aves , ligou imediatamente para o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças e pôs o desgraçado fora de casa. Ficou de quarentena e nunca mais consegui ver um frango a sua frente.
Quando tentava interpor um processo civil contra a Maria, por danos morais, conheceu a Cristina. Era advogada e do signo balança. Fazia sentido. A menina era uma equilibrista sentimental. Sempre em cima do muro. Só para ver o que acontecia. E o José do outro lado a acenar. Ela tinha um medo absurdo do José não a aceitar e com o que ele poderia pensar dela. È verdade, que mais tarde descobriu que ela era stripper nas horas livres. Mas não era caso para tanto. Mas não pensem, que por isso, ela não fosse namoradeira. Bem, pelo contrario. E bastante sofisticada. O corpo dela também ajudava. Queria sempre compreender tudo. Eram perguntas atrás de perguntas. Com os olhos fixos nos do José. Mas o contrario, não era verdade. O José nunca a chegou a conhecer bem! A timidez dela nunca o permitiu. O sexo era formal. Beijo normalizado. Em cenário adequado. Nem quente, nem frio. O tipo de beijo fotográfico. Na cama era tudo muito esquisito. Ela ficava sempre quieta a ver a reacção dele. Se ele dizia que era bom, ela repetia que era maravilhoso. Se ele fazia um ar desconsolado, ela concordava. O José acha que ela nunca soube o que era um orgasmo. Um dia foi embora, ainda hoje não sabe se ela deu por isso. E claro, perdeu o processo contra a Maria.
Estava farto e pronto a desistir. Mas um dia teve de ir ao dentista e encontrou a Rita. Numa primeira impressão, pareceu-lhe demasiado meiga para dentista. Ele tinha um pavor de dentistas. Quando a conheceu, não deu nada por aquela possível relação. Ela era meio triste, muito fechada e a criava uma verdadeira barreira em volta dos seus sentimentos. Que pareciam ser intensos. Próprios de um escorpião. Mais tarde percebeu que ela estava sempre a “morrer de amor”, “morrer de saudade”, “morrer de rir”, ou a “morrer de raiva”. Tudo isto no mesmo dia. Por vezes, tudo isto acontecia na cama. Eram só qualidades: desconfiada, vingativa, obsessiva, rancorosa, fria, orgulhosa, pessimista, maliciosa, cínica, e traiçoeira. A perfeita definição de uma filha da mãe pura. Devia ser por isso que só gostava da mãe e dela própria. O José sentia-se confundido. Por um lado era egocêntrica e odiava sentir-se ameaçada ou sufocada, por outro era intensamente possessiva. Impossível de compreender. Parecia que ela se tinha passado para o lado negro da força. O José namorava com o Darth Vader. E por isso, na cama o José sentia-se um Jedi. Quando ela o beijava, ele precisava de ter um saco de gelo a mão. Era um beijo molhado, intenso, exigente e escandaloso, que era somente uma pequena parte do repertório escaldante que o esperava. Inesquecível. Valia tudo. Cordas, algemas, e toda uma panóplia de utensílios sexuais. Depois de um certo dia, ela se ter esquecido de o desamarrar durante cerca de dez horas, ele desapareceu. Mudou de residência. Mudou de trabalho. Mudou de carro. O José ainda hoje tem medo de passar numa passadeira de peões. As esquinas continuam a seu um terror para ele. Ela ainda anda por ai e o José nunca mais arranjou os dentes. Que se lixe o mau hálito.
Um dia, estava a contar esta história ao seu amigo Ricardo, quando reparou numa rapariga totalmente embriagada no Plateau. Pensou em meter-se com ela. Só podia ser bom, amanha nem ele nem ela se iam lembrar daquilo. Ficou a saber que a Carla era uma jornalista do Record e uma bêbeda incorrigível. Esta rapariga era um desastre chamado Sagitário. O Furacão Katrina, perto dela era uma brisa. Muito alegre mas completamente desastrada. O José teve de fazer um seguro contra acidentes pessoais e outro de saúde. Era uma piadista nata e uma aventureira louca. Era tão divertida que, muitas vezes fazia figuras tristes por se despir em público com as cuecas habitualmente borradas e mijadas. O facto de ser peluda e com as axilas com bastante pilosidade, não ajudava o cenário dantesco. O problema é que queria tudo mas aborrecia-se facilmente com o que tinha. Optimista por natureza, odiava as frustrações. Mas não se conseguia exprimir nestes momentos. O seu vocabulário era limitado e portanto resolvia ficar a olhar para o José com aqueles olhos de carneiro mal-morto. Na cama, os desastres naturais sucediam-se. Esta mulher tinha visto o documentário do Al Gore e o José fazia parte do elenco. Até um simples beijo era um desastre, enrolava-se nas próprias pernas e caía por cima do José, isto depois de derrubar uma estante e algumas cadeiras. Para poder usufruir de um beijo quente e bastante empolgado, o José tinha de a amarrar. Mas depois do sexo – desaparecia. Sempre com a mesma historia – “ Não me ligues, eu telefono-te depois”. Um dia desapareceu de vez. Ou se esqueceu onde morava o José ou passou a integrar algum circo itinerante. O José cancelou o seguro de vida.
O próximo acidente astral, ocorreu quando o José recorreu ao BPI para contrair um empréstimo pessoal. Conheceu a Patrícia, que era bancária no BPI. Era capricorniana, e isso era uma novidade para o José. Ao princípio, ela parecia-lhe uma mosquinha morta. Introvertida e tímida. “Esta vai-me entediar de morte” – pensou o José. Mas aparências ás vezes podem nos enganar. Mas quando a relação pegou a sério, o José viu-se em sérios problemas para alcançar os objectivos mínimos. Até ao farmacêutico teve de pedir ajuda. Mas ela sempre foi uma estratega na relação. Inteligente mas com a mania que era mais que os outros. Responsável e justa. Com um grande sentido de hierarquia. O José foi de repente transportado para as suas recordações do serviço militar obrigatório. Ela sabia claramente quem mandava. Era ela, claro! Mas sem nunca o dar a entender. Sexualmente foi uma surpresa. O José sempre pensou que ela fosse assexuada. Engano. Na cama tudo era estratégia. Era como jogar o Risco. Calculista, ela sabia onde queria chegar. Tinha aquele jeitinho sóbrio e super-educado mas não perdia a sua oportunidade. Começava com aquela conversa toda racional, e quando o José percebeu já tinha levado um beijo. Ela não era lenta era estratégica. Ela adorava ter o controlo da situação. Ao fim de seis meses, o José achou que a sua recruta tinha chegado ao fim. Ainda hoje, quando a vê, lhe faz continência.
Antes da Teresa, conheceu a Anabela. Era do signo aquário. Foi a primeira abordagem do José aos anos 60. Não porque ela fosse mais velha, mas porque era uma autentica hippie. Queria mudar o mundo e era extremamente compreensiva. Era activista do Greenpeace, tudo muito peace and love. Não fazia rigorosamente nada na vida. Quando não estavam na FNAC a devorar livros e musica, estavam enfiados no cinema King a ver filmes independentes. Calma, era a palavra de ordem. Mas também era uma visionária. Pena que fosse míope que nem uma toupeira, o que a fazia estar constantemente a pisar merda de cão. Mas ela era essencialmente original e excêntrica. Até no sexo. Os beijos eram sempre esquisitos, surpreendentes, bizarros e experimentais. Ela adorava o ar chocado do José. Vale tudo no reino do absurdo. Joelho, sovacos, pupilas, narizes, omoplatas, dedo mindinho, e uma imensidão de pontos eróticos alternativos. Ao fim de três meses, depois de ter percorrido todos os centímetros de pele possíveis, todas as posições e todos os lugares imagináveis, o José perdeu o interesse. Quando ela sugeriu, que ele chamasse um amigo para tornar a apimentar a relação, ele achou aquilo demais. O José detestava comboios. E saiu na próxima estação.
O ano de 2007 tinha sido um desastre para o José. Não se mudou para a comunidade homosexual porque era persistente por natureza. “Nunca nos rendemos ao inimigo” pensou em voz alta. “ Para o ano de 2008, vou experimentar o horóscopo chinês”- exclamou veementemente para o Ricardo. Maldita astrologia.
Music : Jamiroquai – “ Cosmic Girl”


