The METROpolitan heteroSEXUAL Outubro 9, 2007
Posted by joão carlos santos in Main Road.trackback
As pessoas gostam de categorizar e definir; cada fenómeno tem que corresponder a uma palavra e cada pessoa a uma categoria. Consequentemente, adoram figurar com novas palavras e categorias. È necessário etiquetar as novas realidades. Uma das mais recentes afirma que – o homem macho morreu. Os yuppies desapareceram nos anos 80. É uma constatação simbólica da nossa era. O denominado retrosexual foi substituído de forma gradual pelo new stilish do metrosexual. Este novo conceito não é mais do que um neologismo aplicado a homens heterossexuais que encarnam em si uma forte preocupação com a sua aparência física e intelectual, mas que simultaneamente adoptam na sua vida quotidiana tendências genericamente atribuídas ao estereótipo predominante dos homossexuais. Confuso? Não vale a pena.
A distinção é bastante simples. A explicação baseia-se numa descontracção teorética do género e a sua associação com o consumismo. Você tem uma preocupação exaustiva com a sua aparência e hábitos de consumo relacionados? Considera-se um homem urbano e com estilo? Tem um rendimento elevado? Gosta de mulheres? Nesse caso, tem muitas hipóteses de ser tornar um metrosexual.
O típico metrosexual é um homem com dinheiro para gastar que vive na, ou nas proximidades, de uma grande cidade. È aqui que se encontram as melhores lojas, clubes, ginásios ou centros de estética. Adicionalmente, as populações das cidades são tipicamente mais liberais, adeptas das reformas e abertas a novas ideias. A tolerância a novas ideias progressivas e ao comportamento alheio é maior. Reflexos de uma certa indiferença e individualismo diriam os mais conservadores. Para um metrosexual é mais fácil “sair do armário” num ambiente liberal e livre de preconceitos. As cidades proporcionam esse ambiente.
A sexualidade não marca a diferença neste campo. Ele pode ser heterosexual, bisexual ou mesmo homosexual. È irrelevante para este assunto, dado ele ter visionado nele próprio o seu próprio objecto de desejo e amor. O metrosexual gosta de mulheres, alguns podem gostar de homens, mas para todos eles, nada se interpõem entre si próprios e a sua imagem reflectida no espelho. Não tem uma representatividade especial em qualquer grupo de profissões. O mito de que apenas os profissionais da moda, media ou musica apresentavam este perfil, desapareceu.
O típico heterosexual antiquado, (re)produtivo, reprimido, e com uma péssima pele, cedeu ao impulso cor de rosa do capitalismo consumista. O estóico heterosexual da década de noventa não fazia compras. O seu papel era ganhar o dinheiro suficiente para a sua mulher gastar. Este homem desapareceu da história. Foi substituído por um outro , com menos certezas quanto á sua identidade mas muito mais interessado na sua imagem. A imagem passou a ser a única maneira de ele saber da sua existência. Este homem passou a ser o sonho de qualquer empresa de publicidade.
È claro, que para esta mudança cultural muito contribuiu a crescente integração, da até então segregada comunidade gay, no movimento mainstream. Os tabus foram decrescendo conforme se moldava uma nova concepção de masculinidade. A construção legal ajudou em conjunto com a influência dos media. A abolição de certas leis em determinados países acerca da união entre membros do mesmo sexo é, apenas um dos exemplos da mudança legal. No campo dos media , algumas soap operas como Will and Grace, Ellen e Queer as Folk , permitam uma assimilação cultural diferenciada. Neste aspecto, o famoso programa Queer Eye for the Straight Guy, marcou uma etapa decisiva na construção da noção de metrosexualidade.
A masculinadade passou a ser mediatizada. De uma outra forma. Claro, que se tentou confundir as coisas. As definições culturais ainda assentam em bases muito frágeis. David Beckam e Brad Pitt eram metrosexuais. George Clooney, Ewan McGregor, Bono eram ubersexuais. Não se vêem grandes diferenças. Pelo menos do ponto de vista masculino.
Obviamente o homem mudou. O narcisismo passou a ter um amplo papel na reconstrução do conceito de masculinidade. Na verdade, o consumismo e o narcisismo estão intimamente relacionados. Freud elucida-nos que uma pessoa narcisista pode amar: o que ele é, o que ele foi, o que ele gostaria de ser ou alguém que em tempos foi uma parte dele. O metrosexual, é aquele que sob o feitiço do marketing deseja ser o que vê retratado nas revistas e na publicidade especificamente desenhada para o género. O amor por si próprio é enorme.
As normas tradicionais da masculinidade estão a desaparecer. Ou pelo menos, a ser substituídas. O evitar da feminilidade, as emoções contidas, a desconexão entre sexo e intimidade, a procura incessante de status, força e agressividade e homofobia, são conceitos em transição rumo ao esquecimento. As questões mais visíveis são as ligadas a feminilidade. São igualmente as mais difíceis de aceitar, por vezes até pelas próprias mulheres. Maquilhagem e jóias, já não pertencem exclusivamente ao universo feminino. Conforme o conceito de feminilidade ganhava mais relevo na sociedade, o de masculinidade tornava-se mais restrito. Talvez a metrosexualidade seja uma reacção contra esta mudança. Os homens sentiam-se cada vez mais confinados a um determinado padrão de regras de género. A revolução metrosexual apareceu. Aparentemente a igualdade de sexos passa por uma certa androginia.
Curiosamente foi a comunidade homosexual a abrir o caminho a esta nova concepção de masculinidade. Pode parecer estranho, como é que alguém que nega a sua masculinidade, ajuda a definir o conceito culturalmente. Mas foi o que aconteceu. Os homosexuais definiram o protótipo de metrosexualidade. Solteiros, definitivamente urbanos, infinitamente incertos quanto a sua identidade, foram pioneiros na combinação entre masculinidade e desejo.
O metrosexual tornou-se uma ideia demasiado poderosa, demasiado cedo. A evolução social e cultural não estava preparada para esta mudança drástica. Mas logicamente, o conceito de metrosexualidade não tem rigorosamente nada a ver com a orientação sexual. Nem as agências de marketing alguma vez permitiriam essa confusão. O novo mercado que se abria era imenso e não podia estar sujeito a incertezas sobre o público-alvo. A mensagem era clara, o metrosexual era heterosexual. O conceito foi embrulhado em algo mais digerível para o consumidor. Um homem heterosexual em contacto com o seu lado feminino, que consegue coordenar cores, preocupa-se com esfoliações e até talvez com depilações. A imagem ganhava força no conceito de masculinidade. Os shoppings e os ginásios começaram a ser a nova Meca do género masculino. A indústria acordou. Roupas, sapatos, jóias, relógios, maquilhagem, creme, ginásios, restaurantes, automóveis, mobiliário, habitação. Tudo se mexeu. Era necessário proporcionar um novo estilo de vida ao homem do Sec. XXI. No entanto, homem regressava ao século XIX – era o regresso do dandy.
Desta forma, podemos identificar dois aspectos do conceito de metrosexualidade: o lado comercial e de marketing e; o lado psicológico e sociológico. A concepção comercial e de marketing centra-se no aspecto narcisista da nova masculinidade. Na concepção psicológica, isto representa o fim da ideia de sexualidade de que personalidade e identidade são definidas pelos facto dos genitais do parceiro serem da mesma forma, ou não, do que os nossos. Personalidade e identidade não são inerentes. São baseadas nas escolhas de estilo de vida, nos padrões de consumo e nos círculos sociais que frequentamos. O marketing percebeu e explorou esta ideia.
A metrosexualidade dependia do narcicismo enquanto que o marketing aproveita a faceta inerente ao erotismo masculino. O uso de campanhas publicitárias onde aparece um corpo masculino perfeito, mas onde nunca aparece o rosto do modelo, ilustra esta lógica. Permite a cada homem idealizar-se naquela imagem. Reforça o seu narcisismo através de uma imagem de erotismo. A Calvin Klein, Armani, Gucci , Guess e a Levi´s sempre apostaram nesta imagem. Se, adicionar-mos a tudo isto, mulheres com seios perfeitos, cerveja, desporto e carros desportivos temos a imagem que o marketing tem da metrosexualidade globalizada. Não é relevante, se o homem tem 18 ou 45 anos, a sua auto-estima narcisista será sempre proeminente.
O homem metrosexual é um fetiche cultural. Uma colecção de fantasias urbanas vendidas pela publicidade. Os metrosexuais são a criação da voracidade capitalista por novos mercados. No mundo de consumo globalizado, o tradicional heterosexual não tinha futuro. Cerveja, preservativos e lâminas de barbear, não excitavam a maquina capitalista. Os metrosexuais representam o futuro desta nova cultura global e consumista.
Bem vestido, narcisista e num perfeito corpo bronzeado. Este é o homem do Sec. XXI. O famoso bigode dos anos 80 desapareceu. Os boxers foram queimados. O corpo masculino é hoje tonificado, eroticamente suave e comercialmente codificado por Bruce Weber, Herb Ritts ou Calvin Klein. Todos os homens vivem numa versão combinada do “Fight Club” com o “American Psycho”.
O género feminino colaborou nesta transformação. A conceptualização de um género feminino que se visualiza no “Sex and the City”, criou parâmetros para os novos homens. A metrosexualidade feminina reforçou a metrosexualidade masculina. A única diferença é que uma é activa e a outra passiva. A noção de masculinidade não nos é dada pela mera relação com uma mulher, pelo contrário, é desafiada por essa mesma mulher. O interesse e as relações com as mulheres deixaram de ser uma prova de virilidade, e passaram a ser uma questão de gosto e de prazer. Não se tenta conquistar uma mulher só porque se quer ter mais uma na lista da virilidade. Conquista-se, porque se quer aquela mulher em especifico. Independentemente, das razões do interesse. Hoje, não basta ser-se mulher para se ser desejada.
Mas o género feminino também mudou. As mulheres deixaram apenas de ser monarcas do seu mundo privado. Financeiramente independentes, profissionalmente realizadas e poderosas; começaram a exigir homens atraentes e elegantes ao seu lado. Apesar de não por muito tempo. Pela mesma razão, como os homens podiam cada vez menos depender da estabilidade das mulheres, voltaram-se para si mesmos. O narcisismo tornou-se uma estratégia de sobrevivência. Cada vez mais se mantêm solteiros ou divorciados. Aqueles que continuam alegremente casados, usam o casamento e mesmo os filhos como acessórios tatuados.
Para todos eles, a era é de promiscuidade. Rotatividade. Ninguém é de ninguém. Somos apenas de nós próprios. O sexo tornou-se meramente recreativo e não reprodutivo. Para os homens não lhes relembra as suas responsabilidades heterosexuais mas a suas possibilidades deleitosas. Devido a extrema rotatividade, tornou-se um desporto radical, onde se joga a vida na resistência do preservativo.
Numa época, sem heróis com que nos possamos identificar, olhamos para nós próprios. Somos todos bastardos de uma cultura relativista. Não existem heróis políticos ou militares. Não existem causas. Só nos restam os heróis ascetas.
Mas grande questão da nossa era é colocada no filme “American Psycho”. Será que ainda queremos fazer alguém feliz? Mas fazer alguém feliz é ainda mais difícil do que nos fazermos felizes a nós próprios. E que, ainda estamos a apreender a conseguir sermos, nós próprios, felizes. E definitivamente, nunca estivemos em “’Brokeback Mountain”.
Music: The Killers “Somebody Told Me”



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