jump to navigation

A Cabeça de Borrego Outubro 31, 2007

Posted by joão carlos santos in Main Road, Road Stories.
4 comments

beja-bd-1.jpg

 

As vezes têm de se mudar de cenário. Quando já toda a gente nos conhece nos sítios habituais, está na altura de mudar de ares durante uns tempos. O convite surgiu pelo Paulo através da Rita. Comer uma cabeça de borrego assada em Beja. Um ponto positivo era conhecer Beja com os meus amigos. Quanto á respectiva cabeça do borrego, não conhecia a dita fora do pescoço do animal. Mas a ideia era agradável. Comecei a imaginar aquela carne de borrego tenra e suculenta, com uma textura suave e com alguma gordura intramuscular que lhe confere sempre um sabor característico não muito intenso. A gordura, quer a cavitária quer a de cobertura, é de cor branca e de consistência firme. Comer um borrego de raça Merino branco regional é um privilégio degustativo. Mas aquela parte de comer a sua cabeça, era uma história que me intrigava. O Merino branco tem uma cabeça larga e curta. O chanfro é recto nas fêmeas e ligeiramente convexo nos machos. Os cornos estão ausentes nas fêmeas e são enrolados em espiral, rugosos e de secção triangular nos machos. A cabeça está revestida de lã que recobre, por vezes, parte da face e do frontal. Era supostamente esta cabeça que iria servir de petisco. Não sabia se era fêmea ou macho, o alvo do repasto; mas parti logo do princípio, que os cornos em espiral ficavam de fora da mesa de refeições. Embarquei então na aventura da cabeça de borrego.    

Sexta-feira, deite-me tarde. Grande novidade. Tinha ido jantar ao meu italiano favorito. Evitei a todo custo, degustar o meu prato favorito – osso bucco. Um tipo tem de inovar e para osso já me ia chegar o delapidar do crânio do borrego que iria comer no sábado. De seguida, foi o normal na noite lisboeta. Desta vez, sai mais cedo da noitada para ir descansar. Isto quer dizer que não sai no fim da festa. Cinco e meia e eu a caminho de casa. Mas ás seis e meia, tinha o telefone a tocar. Já estava meio a dormir e o telemóvel a vibrar. Não atendi.  Alguém decidiu enviar uma mensagem. Era o Fernando – “Atende esta merda seu paneleiro. Chegaste bem? Liga-me! Cabrão!”. Os amigos são assim. Preocupam-se. Tratam-nos bem. Quando invocam a palavra “ paneleiro” querem sempre dizer ” meu grande amigo”; já a palavra “merda” é sempre sinónimo de “ telemóvel” e o exímio parafraseado de “Cabrão” designa sempre a necessidade de dizer ”por favor, que estou preocupado com o teu estado de alcoolemia e o facto de ter encontrado uma operação stop agora mesmo”. Os amigos usam poucas e estranhas palavras. Especialmente, aquela hora. Eu respondi qualquer coisa apenas com um olho aberto e metade do cérebro a funcionar. Não deve ter sido grande resposta.    

E de repente, acordei com o telemóvel novamente a vibrar. Mais uma mensagem. Mas não parou, ao meio-dia e meia, mais uma vibração. Era a Rita – “ Estou a ver que não acordaste, certo?”. A Rita entra em stress sempre que combina alguma coisa comigo. Nem os comprimidos de cerebrum azul conseguem aliviar-lhe a tensão nervosa. Esta questão de eu poder eventualmente adormecer dá-lhe cabo dos nervos. Por isso, passados cinco minutos, mais uma mensagem da Rita – “A minha mãe abandonou-me aqui. Estou no mesmo sítio mas do lado dos comboios.” Estava a entrar em descompensação nervosa. A mãe tinha a abandonado com uma simples frase “ Não te preocupes, ele vem! Deve estar a achegar com uma garrafa de powerrade na boca”.  A Rita nunca pode estar sozinha. Enerva-se. Decidi telefonar-lhe, antes que ela apanha-se o comboio, sabe-se lá para aonde. È que nós tínhamos de ir para Beja, e não me estava a apetecer ter que ir busca-la a algum apeadeiro perto do Entroncamento. Finalmente, lá a consegui ver a Rita perto da estação de metro. A mala, o sorriso e a hiperactividade normal aquela hora.    

 - Ò Joao, que mancha branca é esta no banco da frente?

- Foi a minha afilhada que entornou iogurte no banco.

- Não sabia que a menina com três anos já saia á sexta-feira á noite.

- Não acreditas? Então, supostamente, isso é o que?

- Não quero nem saber, vou-me sentar e nem pensar nisso…

- Inacreditável…

-Inacreditável, é o tamanho desta mancha…   

 Questões higiénicas a parte, seguimos para Setúbal para ir buscar o Paulo. Se o meu carro fosse um restaurante, ela tinha certamente chamado a ASAE para fiscalizar a mancha, tenho a certeza. Como não era o caso, seguimos para a A2 rumo a casa do Paulo. De Lisboa a Setúbal, a Rita contou-me todo o que lhe tinha acontecido num concursos público a que tinha ido fazer provas naquele sábado de manhã. Tinha acordado ás oito horas da manha, enganou-se na fila para o concurso e só percebeu depois de meia hora de espera e para culminar a mãe entrou na sala da prova para lhe ir levar uma garrafinha de agua. A mãe da Rita é querida mas a humilhação foi tremenda. A Rita já entrava em desvantagem. E depois, agua é o que Rita menos precisa numa prova. Ela tem aquele problema do ter de fazer xixi com muita frequência. Não lhe vamos chamar incontinência, porque ela não usa fralda. Mas lá fez a prova, com a água e sem se deslocar uma única vez ao WC. Afinal, nem tudo estava a correr mal. Era normal que estivesse hiperactiva.   

 Chegamos a Setúbal, apanhamos o Paulo e acabamos de carregar a bagagem. A Rita como é lógico já se estava a queixar da fome e da necessidade de fazer xixi. Ninguém se admirou. Até ficamos espantados com a resistência demonstrada até aquela hora. A solução era ir comer ao Rei do Choco. O melhor choco frito de Setúbal. È claro que o melhor restaurante de choco, só poderia ter a maior fila de Setúbal. E inacreditavelmente, a nossa senha era a numero 69. Deu logo origem a piadas de mau gosto, do género, que se calhar íamos ter de comer o choco de joelhos. Decidimos ir fazer tempo, a uma tasquinha, que segundo o Paulo, tem a melhor massa de peixe de Setúbal.     E na verdade, era mesmo uma tasca. Uma autêntica taberna de pescadores, o mais tradicional que possam imaginar. E a Rita, por razões desconhecidas da razão humana, tinha decidido não fazer o seu xixi no restaurante e escolher o WC da taberna para efectuar a tarefa. Talvez tinha sido a senha 69 que a tenha intimidado. Ninguém sabe. Mas a sua escolha iria se provar tremendamente errada. A Rita largou a sua cervejinha e dirigiu-se ao WC. Cinco segundos depois estava de volta com um ar amarelado. “ Porra, aquela porcaria está com um vómito de vinho tinto espalhado por todo o chão” – exclamou engasgada. Tudo isto complicou automaticamente a rotina da taberna. Obrigou o dono a deslocar-se ao local da gergojitação com um líquido desinfectante industrial, um balde de água e uma esfergona. Como não o vimos calçar nenhumas luvas, decidimos pagar e ir ver do nosso choco. Acho que ninguém teve coragem de pegar no troco.   

 No Rei do Choco, o numero 69 já era historia. A história da limpeza da casa de banho tinha complicado o nosso horário e o número de atendimento já ia no 72. Felizmente o Paulo é de Setúbal e nós vivemos em Portugal. Uma breve conversa entre compadres da mesma terra e estávamos sentados em frente a duas maravilhosas travessas de choco frito e uma salada com tomates gigantes. Começou a conversa entre pedaços de choco:   

 - Estou doente a mais de duas semanas e não sei o que é? Segunda-feira vou ao médico. Não posso continuar com febre …(queixou-se a Rita)

- Eu já tive uma encefalite. Fiquei em coma… (exclamou o Paulo)

- E isso dá dores nas costas e no peito… (perguntou a Rita)

- Com certeza. Do pior que existe… (riu-se o Paulo)

- És mesmo estúpido… (resmungou a Rita)

- Encefalite não digo, mas tuberculose é quase certo…

- Eu odeio-vos! Já me esta a doer a cabeça… (gritou a Rita)

-Ò Rita, importas-te de não tossir para cima do choco frito…o bicho ate já esta a ficar amarelo…  

- Isto das dores de cabeça é porque ela já teve um cartãozinho do Júlio de Matos… (disse o Paulo)

- Mentira! Foi o do Santa Maria… (verbalizou a Rita)

- Santa Maria ou Júlio de Matos é indiferente! Não sabias que eras assim… maluquinha…-

 Eu não sou maluca, seus parvos! Foi um problemazito passageiro…( gaguejou a Rita)

- Define “problemazito”…

- Epá, não conseguia estar ao pé das pessoas…nem em sítios fechados…Agora já estou boa e nunca tomei nenhum comprimido. O médico ficou chateado e disse que isto podia voltar depois de dois anos… (murmurou a Rita).

- E á quanto tempo foi isso…-

 Foi a dois anos …(riu-se a Rita)

- PORRA! Eu e o Paulo podemos ir para outra mesa, não há problema…fica a vontade…

- Estúpidos! Eu pelo menos não gosto de gajas com borbulhas e cicatrizes… (gritou a Rita)

- A rapariga não tinha nenhuma borbulha… (exclamou o Paulo)

- Eu pessoalmente não vi nenhuma cicatriz…

- Era seca… (bradou o Paulo)

- Vocês são malucos e míopes…

- Eu só lembro de um metro e oitenta de beleza…

- Alta e seca, sou eu …e linda como o sol… (proferiu a Rita)

- Ò Paulo, a Rita está a dizer que é alta e linda …

- …e não te esqueças de SECA, mano…. (disse o Paulo)

- EU ODEIO- VOS!…é inacreditável…(gritou a Rita)

- Não fales tão alto senão os empregados chamam aqueles senhores com o casaco apertado para te levarem…

- …(risos)    

Depois do almoço, fomos comprar o marisco ás docas de Setúbal. Sapateiras, gambas e navalheiras para acompanhar a famosa cabeça de borrego. Depois foi só apanhar a estrada nacional para Beja. Discussão inicial sobre se devia se ir pela auto-estrada ou pela estrada nacional. Decidimos ir pela nacional por ser mais divertido. Apitamos ao senhor que vendia amêijoas fresquinhas numa banca de estrada com 30 graus a sombra. Apitamos as meninas que ganhavam a sua vida de perna estendida. Apitamos ás vacas. Apitamos aos burros. Apitamos tanto que parecíamos uma ambulância dos Bombeiros Voluntários de Mértola. Paramos na mítica localidade de Canal Caveira. Conversa puxa apito; apito puxa musica e quando demos por nós estávamos na Mimosa.    

 - Epá, estamos na Mimosa, já passamos a saída para Beja …(exclamou o Paulo)

- Porra! Não sabias ir com atenção… (proferiu a Rita)

- Ia na conversa e distrai-me… (disse o Paulo)

- Calma, esta aqui um mapa…

- …(todos a olharem para dois mapas)

- Ò Rita, estás a olhar para o mapa da Europa. Assim vai ser mais difícil. Nós queremos ir para Beja não para Belgrado…

-… (risos) Cala-te! Temos que andar quarenta quilómetros para trás…(disse a Rita)

-…Vou fazer inversão de marcha nesta recta…

- Esta maluco…isto não passa á primeira e sou eu que levo com o outro carro em cima…(exclamou a Rita)

- Vou passar agora…

-NÂO! VEM AI UM CARRO… (gritou a Rita)

- …(dois minutos depois)

- Bom, o carro passou agora! Podemos seguir ou temos de esperar mais cinco minutos por aquela carroça com um burro que vem lá no horizonte….    

Sentido inverso e seguimos para Beja. Passamos por Ferreira do Alentejo famosa pela beleza da antiga Igreja da Misericórdia que exibe um importante Portal Manuelino e um belo retábulo maneirista. Terra natal do grande intelectual e político do século XIX, Júlio Marques de Vilhena. Sentimos o cheiro da vila de Cuba. Cuba livre, a nossa. Enormes rectas rodeadas de planícies sem fim até chegarmos a Beja.    

Chegados ao destino, começamos a preparar o repasto. Foram chegando os simpáticos tios, tias e primos do Paulo. No Alentejo, as pessoas são amáveis e hospitaleiras por natureza. A casa foi enchendo, pouco a pouco, porque estávamos no Alentejo. O Paulo começou a preparar a mariscada. Eu contribui com o corte milimétrico dos pickles. A Rita andava de trás para a frente e dava palpites sobre a maneira como eu devia cortar os ditos. “ Não deviam ter comprado estes Pickles”- resmungou. “ Tu começaste muito bem a cortar mas agora já estas a avacalhar. Olha o tamanho desse pickle. ” – continuou na sua dissertação.” Já chega de cortar. Não vamos comer caldeirada de pickles, pois não? “- prosseguiu na sua tarefa fiscalizadora. Entretanto, todos continuavam calmamente nas suas tarefas. Os tios delapidavam a cabeça do borrego, enchendo um pratinho de carne suculenta.

  beja-bd3.jpg          beja-bd6.jpg         beja-bd4.jpg    

- Vamos aqui petiscar umas gambas com uma cervejinha, enquanto, não chega toda a gente… (sugeriu o Paulo)

- Vamos a isso…

- Eu estou aqui, mas estou muito inquietada com os meus avós. Estão no hospital e eu estou muito preocupada. Este problema com eles… (suspirava a Rita)

- Epá, estas gambas estão muito boas…

- Mas olha que as outras que éramos para trazer também deviam ser boas, mano… (disse o Paulo)

- È INACREDITAVEL! ALGUEM ME ESTÁ A OUVIR? EU ESTOU A FALAR! …(gritou a Rita )-

 A cerveja podia estar mais gelada…-

 Estiveram pouco tempo no congelador… (suspirou o Paulo)

- Eu estou a desabafar! Alguém me pode prestar atenção! PAREM DE COMER AS GAMBAS! …(gritou a Rita)

- O que é que ela está a dizer?

- Ela diz que estava a desabafar… (murmurou o Paulo)

- A desabafar sobre o que?

- Também não percebi, estava a observar o cão a tentar morder o rabo… (exclamou o Paulo)

- PODEM FALAR COMIGO! EU ESTOU AQUI AO LADO! NÃO FALEM UM COM O OUTRO COMO SE EU NÃO ESTIVESSE AQUI! …(gritou a Rita)

- Não grites tanto, que com este frio, vais ficar aflita da garganta e depois não dormimos com a tua tosse á noite. Podes ir ver se as cervejas já estão geladinhas?

- Inacreditável! Eu odeio-vos! Já me esta doer a cabeça… (sussurrou a Rita)

- Estas a ver! È de falares tão alto! Nós avisamos. Quem é que se preocupa com a menina? Quem é?    

Começamos com o repasto. Cabeça de borrego, sapateira, gambas, navalheiras, enchidos de porco preto, queijo alentejano, carne assada e um fabuloso pão alentejano a acompanhar umas azeitonas. Uma petiscada alentejana com um toque a Setúbal. Tudo no seu melhor. A gastronomia do interior com um toque do mar litoral. Eu pessoalmente, ataquei imediatamente o olho do borrego. A minha teoria era, se eu gostar disto nada mais me pode parar. Conclusão, o olho não tinha um sabor característico. Foi só engolir. A fase delicada estava ultrapassada. No Alentejo, sê alentejano. Infelizmente, não fui só eu a incorporar o espírito do Alentejo. O Sporting que jogava aquela hora, decidiu seguir o meu exemplo e empatou na Madeira. Sempre que eu saio com eles de fim-de-semana, o Sporting não ganha. Se eu continuo nesta vida, o Sporting esta despromovido antes do Natal!    

 A seguir a jantarada, fomos para um bar em Beja. Musica ao vivo e um ambiente muito semelhante ao que se pode encontrar em qualquer bar do bairro alto. O pessoal em Beja também sabe ser alternativo. Inacreditavelmente, bebia-se whisky a três euros. Estou a falar num copo alto cheio de whisky! Por isso, é que o pessoal anda sempre devagar no Alentejo. Duas da manha e resolvemos sair do bar em direcção ao resto da noite.    

- Que horas são?- Duas da manha… (disse o Paulo)

- Quero-me ir embora as quatro… (reclamou a Rita)

- Epá, mas hoje temos de atrasar uma hora no relógio. Muda a hora! Portanto, é só uma da manhã… (gritou o Paulo)

- Não tenho sorte nenhuma… (suspirou a Rita)

-… (risos)

- Epá, estou aflito, tenho que ir verter as aguas… (murmurou o Paulo)

-… (silêncio).

- NÂO ESTOU A ACREDITAR, VOCÊS NÃO VÃO TODOS PARA A PORTA DA IGREIJA!… (gritou a Rita)

- È o sitio mais escondido! Ou estas a ver aqui alguma arvore ou arbusto?

- Isso pode ser um monumento nacional! É UMA IGREIJA! VOCÊS VÃO TODOS PARA O INFERNO! …(insistia a Rita)

- Que exagero! Estamos na rua! Não estamos em cima da pia de água benta… (murmurou o Paulo)    

Passamos pelo festival de tunas. O espectáculo normal. Muitos anos de academia já nos habituaram aquelas cenas. Guitarradas, pandeiretas e muita bebida. Divertido, mas muito dejá vu. Decidimos ir para a discoteca Karas. Descartamos a outra hipótese, que era a discoteca Pandora. Tivemos medo de abrir a porta.  

Quando entramos na discoteca Karas foi uma boa surpresa. Bom ambiente e muita animação. Beja estava animada. A Rita começou logo a embirrar com o facto de a discoteca ter muita luz. “ Mas isto tem imensa luz! Dá para ver toda a gente. Eu assim não consigo dançar! – exclamou irritada. Fiacmos mais algum tempo na pista dedicada a dance music, mas como a Rita não se mexia, decidiram todos ir dar uma volta pelos outros espaços da casa. Eu fiquei a dançar. De repente , o Paulo foi-me chamar: 

Vamos ali beber champagne, a Rita faz anos… (gritou o Paulo)

- A Rita faz anos?

- O meu primo disse que oferecem uma garrafa de champagne aos aniversariantes, e nós inventamos que ela fazia o aniversário hoje… (riu-se o Paulo)

- Mas é assim tão fácil?

- O barman pediu-lhe o bilhete de identidade, mas ela disse que estava na carteira no bengaleiro… (explicou o Paulo)

-… (risos) …     

Na verdade, fomos beber o tal champagne. E ainda tivemos o descaramento de fazer um brinde com o barman. A Rita ainda reclamou com a qualidade do champagne, que na verdade era espumante. Mesmo a borla ela queria Moët  & Chandon. Pegamos na garrafa, antes que ela exigisse uma outra garrafa, e dirigimo-nos a pista de dança latina. Todos estávamos empenhados em que a Rita dançasse. O Paulo fez a primeira tentativa:  

 - Vamos dançar?… (convidou o Paulo)

-… (silencio)

Empresta-me a tua perna?… (perguntou o Paulo)

- A minha perna???… (questionou a Rita)

- Sim, vamos dançar a dog style… (riu-se o Paulo)

- Que estúpido! Larga a minha perna imediatamente… (gritou a Rita)

-…AAAUUUUUUUUUU!…( uivou o Paulo)

- Que vergonha! Esta tudo a olhar…  

 Não estava a resultar. A Rita continuava a não se mexer. Aproveitei uma música mais ritmada e tentei que ela se mexesse um pouco mais.   

- Vamos lá, isto não custa nada…

- Calma! Eu sei dançar muito bem…

- Mexe a anca!

- …(movimentos desconexos)

- MEXE A ANCA! Sem a anca não há nada a fazer…

- EU ESTOU A MEXER A ANCA…

- Mas tem de ser consoante o ritmo. Isto não é uma dança tribal…

- Um autentico rabito de chumbo… (opinou o Paulo)

- EU NÃO GOSTO DESTA MUSICA…

- Claro…claro…é a musica! Nunca passam musicas tribais africanas nas discotecas, não sei porque???

- Eu vou-me embora… (amuou a Rita)   

 E passado um bocado, lá foi ela embora. Foi para o carro e colocou ar condicionado no máximo. Antes de ficar completamente cozinhada, fartou-se e foi beber uma cervejinha ao festival das tunas. Ainda ficou tentada a entrar novamente na Karas, mas resistiu, aquilo do rabinho de chumbo estava a enerva-la. Quando eu e o Paulo saímos finalmente da discoteca, encontra-mos a Rita a dormitar no carro. Mas acordou bem disposta e claro, com fome. Os primos do Paulo tinham-se perdido na noite. E a discussão seguinte foi quem é que levava o carro. Ninguém quis levar o carro. Sobrava a minha pessoa. Os problemas começaram á saída do parque de estacionamento.    

-João, não podes ir por esse lado! Olha que é sentido proibido… (sugeriu a Rita)

- NÂO! Sentido proibido é do outro lado… (gritou o Paulo)

- …(carro atravessado no meio da estrada)

- Parem lá com isso! Estão a baralhar-me! O objectivo é não dar nas vistas! Estamos atravessados no meio da estrada! Eu vou por aqui…

- Vai por ai! Não me liguem! Os dois mais alcoolizados é que decidem onde é ou não o sentido proibido. Coisa linda… (suspirou a Rita)

- …(carro a rodar a 20 km/hora)

- Não podemos ir mais rápido… (disse a Rita)

- Estou a ver se vejo a brigada…

- Se quiseres ser mais discreto basta apagar as luzes do carro… (sugeriu a Rita)

- Para o carro! Eu vou perguntar ao taxista se ele sabe onde está a operação stop… (sugeriu o Paulo)

- JOÂO, NÃO PARES NA PARAGEM DOS TAXIS… (gritou a Rita)

- …(carro parado na paragem dos táxis)

- Mano, o taxista está a dormir! Este gajo não vai dizer nada hoje… (gritou o Paulo)

- Se falares mais alto, talvez ele consiga dormir melhor…( sussurrou a Rita)

- …(carro em movimento pelas ruas de Beja)

- Perfeito! Tanta movimentação e vamos passar exactamente em frente da esquadra da policia… (suspirou a Rita)

- Acelera!… (disse o Paulo)

- Viemos em marcha de caracol e agora vamos acelerar exactamente em frente da esquadra. Bem pensado… (ironizou a Rita)

- Calma! Eles não iam fazer uma operação stop em frente da esquadra. Isto é o Alentejo, mas não exageremos…

- Mano, eles devem estar naquela rotunda aqui em baixo. Vira aqui á direita! Rápido! …(sugeriu o Paulo).

- Que coisa linda! Vamos a fugir da brigada a 20km/hora! Até um polícia de bicicleta nos apanhava! Vocês são bons nisto… (gozou a Rita)

- Cala-te! Não sejas negativa…   

Finalmente, conseguimos chegar a casa. A maravilhosa tia do Paulo tinha nos deixado uma pequenina ceia composta por carne assada, enchidos, queijo, bolo e arroz doce. A alcateia atacou a presa sem piedade. A vida no Alentejo é mais bela. È claro que a Rita se repugnou, de acompanhar-mos tudo aquele repasto com um litro de leite. Não percebe nada de dietética. Até que ela, olhando para o telemóvel, comentou – “ O Fernando deixou uma mensagem”. “ E é exactamente igual a minha” – comentei. Sete horas da manha e iniciamos uma guerra de mensagens e telefonemas entre o Alentejo e a capital nacional do deserto – Almada. Quando chegou a mensagem “ Vão cagar.”, celebrou-se a vitoria efusivamente. A guerra psicologia estava ganha. O povo unido jamais será vencido. Nessa noite voltou a cantar-se a Grândola vila morena.

O problema foi adormecer. Eu não tinha sono e decidi perturbar o sono a Rita até as oito da manha. Ela merecia, ninguém usa um pijama cor-de-rosa com bonequinhos no Alentejo. Eu morria de frio no meu quarto devido a uma janela que não fechava; enquanto ela se ria do outro quarto elogiando a qualidade térmica do pijama cor-de-rosa.   

 - Estás com frio, coitadinho! O meu pijaminha é tão quente…

- Cala-te! Ou eu obrigo-te a mudar de quarto…

- Vais dormir de luz acesa???

- Vou…

- Tens medo do escuro????

- Não…

- Ai! Que o menino tem medo do escuro…

- Já estas a exagerar…

- Estás a fumar no quarto???

- Não…

- Estas sim, que eu estou a ouvir…

- Como é que tu podes ouvir um cigarro???

- Estou a ouvir…

- Isso é impossível…

- Estou cheia de calor…

- Não gozes que eu não sinto o nariz….

- …(risos)…

- Empresta-me a televisão do teu quarto???

- Não tem antena…

-Ninguém, tem uma televisão sem antena…experimenta ligar…

- Não posso senão fico com os pés frios…

- Estas a brincar, tu estavas cheia de calor…

- Excepto nos pés…    

Adormeci, e só acordei com uma mosca que a Rita tinha expulso do quarto dela para o meu. Uma hora de suplicio. Pousa no nariz, na boca, nos dedos, na testa, na orelha. A relação demorou tanto tempo que acabei por lhe dar um nome – Ricardina. A Ricardina fez-me sair da cama mais rápido que qualquer despertador. Há relações que não estão destinadas a dar certo.   

 O domingo seguinte, foi como os domingos são em qualquer lado. Pacatos e tranquilos. Mas quando chegamos a casa da tia do Paulo, deparou-se o nosso próprio espelho no mundo animal. O cão nervoso, batia a cauda em ritmo alucinante. O gato vomitava. Uma abelha atacava a Rita. Gritos e confusão. Os animais também sofrem com o sábado. Quem é que já não se reviu naquela figura amarelada e infeliz daquele gato a um domingo de manha. Mas o almoço foi plácido.   

 De seguida visita pela cidade de Beja. Passeio pelo centro de Beja e visita ao castelo. Paramos o carro e saímos:   

 - O meu casaco cheira a pão… (comentou a Rita)

- Ela quer e que a gente lhe passe manteiga… (gracejou o Paulo)

- Vocês, desculpem, mas pessoalmente o porta bagagens do carro tem um cheiro a peixe inacreditável…

- Mano, é do saco térmico onde veio o marisco! E eu tenho a cabeça de borrego lá dentro…Vou tirar isto senão o borrego fica a saber a bacalhau… (exclamou o Paulo)

- Que nojo… (agoniou-se a Rita)

- Isto até Lisboa, vai ser uma coisa linda…Parece que estamos na Ribeira em hora de ponta…  

 Visitamos o castelo, que já se encontrava encerrado. Fotografia á parte de fora do castelo. E a visita tornou-se mais curta. Viagem de regresso a Lisboa com paragem em Setúbal. A Rita amavelmente decidiu trazer o carro de Setúbal a Lisboa e em senti-me como no filme Mad Max. A sua inabilidade para lidar com a embraiagem do automóvel nunca mais sairá da memória de todos aqueles que tiveram a pouca sorte de se cruzar connosco neste curto trajecto. O barulho do carro foi tremendo. Mas tínhamos conseguido comer a cabeça do borrego. Viva o Alentejo.