O Problema das Cegonhas Parisienses Setembro 28, 2007
Posted by joão carlos santos in Road Stories.2 comments
Todos nós gostamos de cegonhas. È uma avezinha adorável. Segundo o nosso imaginário de crianças, os bebés eram transportados no bico de uma cegonha no interior de uma alcofa. Todos conseguimos nos lembrar, recorrendo ao nosso imaginário infantil, daquela pergunta fundamental que a determinada altura da nossa vida dirigimos ao nosso pai:
- “Pai, de onde é que vêm os bebes? “
- “Vai perguntar à mãe… E já que vais à cozinha trás uma cerveja e uma sandes de presunto ao pai”!
Após um número indeterminado de viagens entre a cozinha e a sala, a nossa incontida paciência infantil esgotava-se e o inevitável acontecia. Um berreiro de bradar ao céus. E aqui entrava a nossa amiga cegonha!
- “Os bebés vêm de Paris trazidos no bico da cegonha”
- “Mas, mãe, o meu amigo Aziz também veio de Paris?”
- “Não. Algumas cegonhas vêm de Paris e trazem aqueles bebés mais branquinhos. Mas as outras trazem os bebés de Marrocos, e lá os bebés são mais escuros”.
- “E para onde é que vai a cegonha depois da entregar o bebe?”
- “Ela volta para dentro das cuecas do teu pai…”
Só uns anos mais tarde se consegue alcançar a verdadeira asserção daquelas palavras. Na verdade, as cegonhas marroquinas pertenciam ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), enquanto que as originarias de França só as conseguiríamos ver anos mais tarde numa famosa visita ao Moulin Rouge. Quanto á questão das cuecas do nosso pai, será algo que tentaremos apagar da nossa memória para sempre. Toda a gente sabe, os nossos pais não fazem sexo! Decorridos alguns anos mais, fica-se enfim, com uma verdadeira ideia acerca do famoso bichinho. O velhaco do pássaro pernilongo.
A nossa introdução adulta ao passaroco poder-se-ia resumir usando uma expressão de Woody Allen “I panic!”. Felizes ou não, todos entram em pânico com a notícia. Vem aí uma cegonha num voo particular com uma entrega especial. E para quem? Para nós. Exacto, não é para aqueles nossos amigos a quem nos visitamos ao fim de semana; e onde nos entretemos a brincar com a linda criancinha que, com tanta excitação, fica a berrar depois da nossa saída. Não. Aquela encomenda é para ficar em nossa casa. O remetente não se enganou e o endereço esta correcto. Não dá para devolver. A Carla e o Pedro descobriram esta verdade mais cedo do o que esperavam.
A Carla fez vintes testes de farmácia até o farmacêutico lhe afirmar peremptoriamente – “ SIM. VOCÊ ESTÁ GRAVIDA”. E ela teve um ataque de choro e insistiu em que devia consultar um ginecologista antes de ter certeza. Telefonou ás amigas. As amigas telefonam ás amigas. O círculo aumentou até que a noticia eventualmente chegou ao futuro pai. O Pedro. O tal que namorava a oito meses com a Carla.
Mas o Pedro já andava desconfiado. Há semanas que ele sabia que algo não estava normal. Aparentemente, os homens também têm intuição. A nossa sensibilidade não serve só para saber quando se deve trocar o óleo do carro. No dia anterior, o Pedro chegara a casa da Carla trazendo duas caixas do gelado favorito dela. Haagen-dazs com sabor a strawberry cheesecake. Tinha que ser sempre aquele. Qualquer outro implicava nova visita ao supermercado. Ao entrar no apartamento ficou chocado ao dar de caras com ela com um aspecto abraseado. Aparentemente estava com uma nova mania. Ele já conseguia distinguir as manias dela pelas estações do ano. A mania deste Verão era o Elvis Costelo. Na Primavera, tinha andado obcecada por Juanes, por causa da Telenovela “ Vingança”. Ele já não conseguia ouvir aquele acrónismo constante do “ Para tu amor lo tengo todo ; Desde mi sangre hasta la escencia de mi ser, Y para tu amor que es mi tesoro; Tengo mi vida toda entera a tus pies …” Aquela porcaria, todo o dia era demais. A única vantagem era que sempre que ela ouvia aquilo queria ter sexo. Do mal, o menos. Por vezes um dos nossos sentidos tem de se sacrificar. Não ser a visão já não era mau.
Não se sabe o que aconteceu mas a moda agora era o “She”. Estava numa fase romântica. Pelo menos não era o Mika. Comprou os CDs e os dois DVDs. Mas o problema revelou-se ao jantar. O Pedro cozinhou o seu famoso esparguete a bolonhesa. Era o único prato que sabia cozinhar decentemente. Surpresa. A Carla de repente, fez um ar enjoado e saltou a correr para o WC. O Pedro ainda cheirou o resto da refeição que permanecia no tacho. Podia ser do queijo parmesão.
-Esta tudo bem contigo?
- Está… Tudo bem… [ruído de vomito]
- Não me parece. Tens a certeza?
- Sim. Porra, uma pessoa já não pode estar sossegada na casa de banho…è incrível…
Ela regressou a mesa com um aspecto pálido e abatido. E nesse momento, o Pedro teve a sua epifania do ano.
- Estás grávida?
- Deves estar parvo. Que brincadeira tão estúpida.
- Estou a falar a sério. Tu estás grávida. Esses enjoos não são normais…
- Isso é mesmo típico de homem. Uma pessoa enjoa e está automaticamente grávida. E se estivesse de diarreia? Tinha uma úlcera nervosa? Se eu estivesse grávida tinha desejos…
- Talvez isso comece um pouco mais tarde…
- EU NÃO ESTOU GRÁVIDA!!!.
- Nunca se sabe! Essa mania de estar sempre a ouvir o “She” do Elvis Costelo não é normal. Especialmente no Verão. Isso pode ser um desejo…
- Por amor de Deus…mas tu queres tanto ser pai? E outra mania como quando querias ter obrigatoriamente a Playstation 3? Olha que aqui não poder fazer restart game …
-Já estas a azedar. Era só uma observação. Por que é que amanha não compras um daqueles testes na farmácia, só pra esclarecer esta dúvida?
- Tu estás maluco. Esclarecer o quê? Já te disse que não estou grávida. Se estivesse, eu saberia.
- Mas sabias como? Ensinaram medicina no teu curso de ciências da comunicação…
- INTUIÇÃO. As mulheres têm intuição.
- E os homens têm raciocínio lógico. E neste momento, o meu está-me a gritar aos ouvidos que tu podes estar grávida. Compra a raio do teste. Não custa nada…
- Se eu comprar o tal teste, deixas-me de me chatear com esta história?
- Prometo.
- Mas vamos ter que fazer uma aposta. Se der positivo, ganhas tu. Negativo, ganho eu.
- Por mim tudo bem. O que é que vamos apostar?
- Ora, o quê! O mesmo de sempre… -
Sexo? Está combinado. Não se pensa mais nisso.
- Eu sabia que tu ias gostar!
- Só tem uma coisinha que me está a preocupar…
- O quê?
- Será que não vai fazer mal para a criança? Podemos tocar sem querer na cabecinha dele…
- Não há paciência! Vai para casa que eu quero dormir.
O bom senso do Pedro fez com que ele parasse com a história e fosse para casa. Não é sensato abusar da paciência das grávidas. O humor das grávidas não é muito estável. E ele não queria começar a sua nova vida como pai com a cabeça partida.
No dia seguinte, o Pedro ganhou a aposta. Pouco depois do almoço, o telefone toca. Era a Carla. Chorando. Sem parar. Mau sinal.
- Calma. Não estou a entender nada do que estas a dizer. Respira fundo.
- O teste deu positivo! (soluço)
- Teste? Que teste… O TESTE DEU POSITIVO???
- Eu estou grávida! (soluço)
- TU ESTÁS GRÁVIDA???
- Vais ficar a repetir tudo o que estou a dizer?
-……. (silencio)
- Está aí?
-… Estou. É que…! Nem sei o que dizer!
- EU SEI! Vem cá a casa!
- Já estou a caminho.
O Pedro pegou nas suas coisas e saiu a correr da Faculdade. Arritmia cardíaca no máximo. O fôlego no mínimo. Apanhou um táxi com um sorriso parvo estampado na cara. Parecia que toda a gente olhava para ele. Ele não queria saber. Ia ser pai. E ainda por cima tinha ganho a aposta. Sexo garantido á noite. O dia estava a correr bem.
Mas ás vezes parece que o Diabo fica entediado lá no inferno e vem até a Terra para se divertir às nossas custas. Foi o que aconteceu três dias depois, quando a Carla resolveu reunir a sua família para anunciar a sua gravidez.
O jantar de anúncio da gravidez é sempre um marco histórico. A Carla ensaiou aquele momento na frente do espelho durante três dias. Preparou o discurso exaustivamente. Decorou a mesa com um belo arranjo de flores. Gastou uma pequena fortuna em comida pronta, vinhos e champanhe. Este era o grande momento da Carla. Na sua planificação mental, logo a seguir as sobremesas, as taças de champanhe seriam distribuídas e, diante da expressão de expectativa dos convidados, ela daria a notícia. Batia com a colherzinha no copo, como nos filmes, e anunciava a gravidez. Felicitações, abraços e choros e todos a afirmarem que ela seria a melhor mae do mundo.
Os convidados começaram a chegar a um ritmo certo. Ninguém se atrasou. O Pedro olhou para a mesa. Beringelas com maionese! “Eu mereço isto, porra” – pensou. E isto foi o melhor que o esperava durante toda a noite. Aparentemente, todas as mulheres parecem retirar do seu DNA um extenso rol de pareceres assim que uma delas engravida. Mesmo aquelas nunca sonharam em ter filhos; e que nem irmãos tem – tornam-se subitamente as maiores conselheiras sobre gestação. E os conselhos são inacreditáveis. Ciência? Ginecologia? Obstetrícia? Pré-Natal? Ultrassom? Astrologia? E milhares de livros e agendas sobre Bebés. “Inacreditável. A criança vai ser um zombie” – pensava o Pedro.
Na hora certa, a Carla chamou o Pedro à cozinha:
- “Tu distribuis as taças enquanto eu vou fazer xixi”.
- “Tudo bem”
Mal o Pedro entrou na sala com as taças de champanhe a sogra perguntou-lhe imediatamente a que se devia toda aquela cerimónia. Ele falou que não era nada de especial, mas que assim que a Carla voltasse do WC explicaria toda a situação. E foi aí que o Diabo entrou na história:
– Tem que lhe perguntar mal ela saia. É que ela depois deve voltar imediatamente para o WC. Sabe como são as mulheres grávidas!
O Pedro falou sem pensar. Como se tivesse pensado em voz alta. Fez-se o silêncio na sala. “ ELA ESTÁ GRÁVIDA???” – exclamou o sogro. E dois segundos depois tudo se precipitou. A Carla apareceu vinda do WC como um míssil, com um olhar de ódio fixo no Pedro. O sogro abanava freneticamente a garrafa de champanhe enquanto a sogra se agarrava ao pescoço do Pedro lavada em lágrimas. Este tentava desenvencilhar-se da sogra e correr para abraçar a Carla. Ele sabia que ia apanhar, no mínimo. Foi nesse momento que Satanás, talvez arrependido do que acabara de fazer com o Pedro resolveu interferir novamente: o sogro abriu o champanhe, a rolha voou e foi bater no olho do irmão da Carla. As atenções desviaram -se para ele.
“Estou cego!” – berrava o coitado agarrado ao olho esquerdo. A sogra pegou na mala e aclarou: “Vamos te levar para o hospital, meu filho, calma…”. A Carla não sabia se auxiliava o irmão, se chorava ou se dava uma sova no Pedro. Este dissimulava alguma preocupação com o olho negro do cunhado. Tudo para escapar da ira de uma mulher grávida. No entanto, quando todos saíram a Carla sussurrou para o Pedro – “ Tu vais pagar por isto…”
O Pedro nunca tinha lido Dante. Nem precisou. Os dias seguintes foram um inferno. A Carla não lhe dirigia a palavra. Nada de trejeitos, sinais, avisos, nada! Era como se este fosse o bengaleiro. Ele tentou pedir desculpas, contar a sua versão da história, mas nada adiantou. Então o Pedro entrou no jogo. Aguentou firmemente a pressão. Saiu para trabalhar e foi almoçar com o Paulo, para ver se ele lhe dava alguma ideia de como sair daquela situação.
– Estás lixado… que situação complicada. Mas também, o que é que te deu nessa cabecinha?
– Foi o Diabo…
- O que é que estas para ai a dizer?
– Esquece! Eu sei lá por que fiz aquilo! Vais-me ajudar ou vais ficar para ai a criticar-me com cara de parvo?
– Eu quero te ajudar, tu sabes. Ela deve estar um bicho. Que tal umas flores?
– Nesse caso, é que ela me expulsa de casa. Tu acha que ela cai nessa? Ké Flô? Estas a brincar…
– É verdade. Tentar agradar depois de fazer merda nunca dá certo.
– E então?
– Eu sei lá!
- Grande amigo. Pagas tu esta merda…
O Pedro chegou a casa sem a mínima ideia de como enfrentar uma mulher grávida furiosa. Nenhum amigo o poderia ajudar. Nenhum homem sabe como enfrentar uma mulher enfurecida, quanto mais grávida. Chegou a casa e tentou puxar o assunto:
– Olá.
- …(silencio)
– Como estás?
–… (silencio)
– Sentis-te enjoos hoje?
–… (silencio)
– Não vais falar comigo?
–… (silencio)
– Então está bem. Vou ali ouvir uns discos, espero que não te incomode.
Foi até a prateleira e puxou pelo CD que havia deixado separado para ouvir. Demon Days dos Gorillaz. Colocou o CD na aparelhagem e recostou-se na poltrona. Só que, quando o CD começou a tocar, em vez de ouvir Gorillaz começou a tocar o “She “ do Elvis Costelo. Levantou-se sem entender nada. Olhou para o CD, e leu – The Best of Elvis Costelo. Procurou o CD dos Gorillaz no meio da sua colecção. Eram mais de 500 CD´s, mais ou menos organizados por género e por nome do artista. Estavam todos fora de ordem. Olhou para a Carla e ela estava com um meio-sorriso no rosto.
–Tu trocaste a capa do meu CD de Gorillaz? É isso?
- Não.
– Tu trocaste a capa de TODOS?
- Sim…
– E é essa a tua vingança? Pffff, que coisa parva. Eu arrumo isto num instante…
– Boa sorte. Eu vou dormir.
Ainda eram dez da noite. Ela tinha falado com ele. O Pedro entregou-se ao trabalho de colocar os seus CDs de volta nas capas respectivas e a reordenar tudo. O obsessivo-compulsivo que existia nele queria gritar e sair correndo em direcção ao quarto. Quando terminou eram cinco da manha. A última capa era dos Keane. Arrumou o disco correcto no seu interior e por fim encontrou o CD Deamon Days. Junto ao CD, estava um bilhete da Carla: “Se ainda estiveres meio acordado depois dessa trabalheira toda, vem ter comigo ao quarto. Vamos fazer as pazes a nossa maneira.”
O Pedro foi até ao quarto e encontrou-a acordada e muito bem disposta. Com o banho tomado e pronta para tomar o pequeno-almoço. Foi uma refeição diferente. Mais picante do que o habitual.
Enquanto tomava banho, o Pedro olhou pela pequena janela do WC. No exterior, no alto de uma torre, uma cegonha olhava para ele. O passaroco parecia rir-se para ele; e o Pedro poderia jurar que o ouviu dizer:
- “ Calma, que ainda faltam oito meses…”
Music: Elvis Costello “She”


