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O Anel de Vera Setembro 23, 2007

Posted by joão carlos santos in Road Stories.
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Olhei para o relógio. Marcava inexoravelmente como habitualmente em todas as sextas feiras – seis horas. O último “slow” habitual do Plateau tinha terminado. Os corpos cansados vagueavam pelo meio da pista iluminada. Trocavam-se os últimos números de telefone. Os lábios beijavam-se pela última vez até um próximo reencontro casual em qualquer esquina de Lisboa. Faziam-se as derradeiras promessas de encantamento eterno. O habitual clima de fim de festa.

Olhei em volta a procura do cansaço do meu confrade noctívago. Mas o Rui continuava animado. Homem acostumado ao mar. Habituado ao inóspito mar da Escócia e a dureza das plataformas petrolíferas. Sentia o conforto da terra e de todos os seus inóspitos prazeres. Ansiava por mais. Mais terra. Mais prazer. Mais sereias.

Mas a noite é sempre igual e as sereias não gostam do amanhecer. Perdem os seus encantos e os seus murmúrios já não enlouquecem ninguém. E por isso o caminho passa sempre inevitavelmente pelas íngremes escadas que nos fazem sempre, de forma perene e acrobática, deslizar até á porta do Kremlin. A fila de luzes amarelas que se vislumbra ao fim da rua como que indicava a vida daqueles cuja missão é transportar as alegrias e tristezas de outros até um qualquer porto seguro. A luz amarela que indica o fim da noite.

Mas o Rui não queria um porto seguro. Deus o livre. Ele queria essencialmente prolongar a insegurança. Nada melhor do que comer numa roulote para concretizar esse sentimento. Exclamou – “ Vamos comer um hamburger” – enquanto andava apressadamente em direcção daquilo que ele pensava que lhe iria acalmar a ânsia de vida. Mas a noite é traiçoeira. Nem afaga as ânsias. Multiplica-as por mil.

E assim foi. No meio do fumo emergente do grelhador ininterrupto de carnes industrializadas, surgiu a Vera. O rosto da Vera. Das feições emolduradas por um cabelo louro apanhado surgia uma luz de simpatia. Ao contemplar o rosto da vera era impossível não promover um parcial sorriso e encontrar um pequeno abrigo. No rosto da Vera encontrava-se o conforto para uns olhos cansados por uma noite agitada. È esse o efeito da verdadeira e real beleza. Aquela beleza que promove a felicidade de facto; que vai para alem do aparente e que possui um formato único. No rosto da Vera existiam todas as receitas de prazer e todas as formas de sanar o cansaço. Na sua tez branca, quase pálida, reflectiam-se os primeiros raios do amanhecer.   

Da beleza dos seus olhos surgia um brilho, uma bênção de felicidade que qualquer alma não poderia esconder e muito menos ignorar por muito embriagada que estivesse. O que a fazia simplesmente radiante. O esgar de cansaço no seu rosto não conseguia esconder a sua flamância. Apenas salientava aquele tipo de beleza de acolher quem não tem e de proteger quem não esta bem. A essência do poder ver, falar, mas de principalmente de saber escutar.  

A beleza da Vera era notória. Podia-se descortinar no meio do nevoeiro. Não era necessário ver. Sentia-se; não terminava; transformava-se; não seguia padrões nem obedecia a imposições. A sua beleza ilustrada num corpo esguio e esbelto tapado por uns quaisquer jeans e por uma t-shirt com odores a especiarias não escondia o poder de oferecer o carinho na hora certa e de sorrir para as incertezas das conversas de estranhos.

O Rui apenas notou o evidente. E não era preciso mais. Estava ali á sua frente. Comeu o seu primeiro hamburger. E tornou a repetir. Não por fome mas porque não conseguia afastar os olhos. Era como se nada conseguisse saciar a sua fome. O tipo de desejo que faz sucumbir um homem.   

Ao fim de degustar a seu segundo hamburger, reparou num pequeno anel no dedo de Vera. Intrigado, e com uma réstia de esperança, perguntou-lhe o significado do anel. “ È o meu anel de Noivado. Estou Noiva” – esclareceu Vera. No meio de felicitações e parabéns a conversa foi-se prolongando. Mas o Rui não estava convencido. E foi insistindo. “ Então, quando é que é o casamento? “ – insistiu de forma esperançosa.  A Vera voltou-se de forma calma e olhou o Rui. “Eu recusei o pedido de casamento. Disse que não. Mas como ele insistiu em fiquei com o anel. Na verdade eu gosto do anel” – explicou perante os olhos entusiasmados do Rui.

E eu fiquei a olhar para a Vera. Sorri. E imaginei uma jantar elegante num qualquer restaurante da moda com duas pessoas elegantemente sentadas frente a frente. Visualizei um rapaz ansioso com um discurso ensaiado. “ Queres casar comigo” e de repente um simples e singelo – “Não”. Imaginei aquela face cândida e voz meiga a dizer – “Não”. E olhei com outros olhos para a Vera. 

 Naquele momento a Vera ensinou-me uma lição de vida. Demonstrou a importância das palavras pequenas. As palavras mais importantes em todas as línguas são palavras pequenas. “Sim”, por exemplo. Amor. Deus. São palavras que saem com facilidade, e preenchem espaços vazios no nosso mundo. No entanto, existe uma palavra – também muito pequena – que temos dificuldade em dizer.

“Não” E achamo-nos generosos, compreensivos e educados por não a utilizar. Porque o “não” tem fama de maldito, egoísta, pouco espiritual. Mas na verdade, há momentos em que – ao dizer “sim” para os outros, nós estamos dizendo “não” para nós mesmo. Todos os grandes homens e mulheres do mundo foram pessoas que, mais do que dizer “sim”, se destacaram por dizer um rotundo NÃO a tudo que não combinava com os seus ideais.  A Vera fez-me recordar da frase de Anton Chekov – “Se você tem medo da solidão, não se case.” – e da parábola da borboleta. Nessa historia consta que, quando criança, alguém reparou num casulo preso a uma árvore, onde uma borboleta preparava-se para sair. Esperou algum tempo, mas como estava demorando muito resolveu acelerar o processo. Começou a aquecer o casulo com seu hálito; A borboleta terminou saindo, mas as suas asas ainda estavam presas, e terminou por morrer pouco tempo depois. Era necessária uma paciente maturação feita pelo sol, e a criança não soube esperar. A vera fez-me entender o que é um verdadeiro pecado mortal: forçar as grandes leis do universo. É preciso paciência, aguardar a hora certa. E ela aguardou. 

A força do “Não” exprimido pela Vera fez-me comprovar que a razão é sempre aberta, incompleta e por isso não se pode prender a memória de acontecimentos passados. Mesmo sendo estes agradáveis. Neste caso a luta da razão foi com a tradição obrigatória do “Sim”. A força da linguagem da própria razão cria o nosso ser e vivência. A linguagem foi criadora da realidade, e assim abriu uma via nova, onde a razão se exprimiu, antes de mais, na afirmação da Vera perante as certezas culturais que nos são impostas.   

A Vera escolheu não caminhar para lugar algum. Nem voltar para o ponto de partida, nem ir até ao final da prova. Ficou parada, imobilizada no meio do caminho, talvez como aquela pedra da poesia de Drummond. A pedra que alguns pensam em retirar e que outros passam por cima sem se importar com o que ela sinta e deseje. Afinal, o que uma pedra haveria de sentir e de querer?   

Mas existe quem distinga uma pedra preciosa no meio de uma calçada. O Rui vislumbrou o seu brilho. Com uma caneta emprestada escreveu o seu número de telefone num guardanapo com nódoas de molho. Valeu tanto como se fosse um pergaminho. Entregou-o discretamente e sussurrou “- Telefona-me”. Afastou-se em direcção ao táxi olhando para trás.   

Não interessa se a Vera vai telefonar. Para o Rui nos próximos quinze dias, quando contemplar o Mar da Escócia, a sua “pedra preciosa” vai valer mais do que qualquer poço de petróleo. A verdadeira historia está nos mistérios da noite, onde duas pessoas que nunca se poderiam encontrar – na verdade encontraram-se. Nem que seja por breves momentos, o Rui foi verdadeiramente feliz. Sem compromissos. Sem preconceitos.   

Quanto a mim, possivelmente nunca mais verei a Vera. Mas nunca mais vou esquecer a Vera e a sua lição. E quando olhar para aquela roulote vou ver sempre uma borboleta.   

Carpe Diem Vera

Music : INXS “Beautiful Girl”