Em Busca da Pessoa Errada Setembro 22, 2007
Posted by joão carlos santos in Main Road.1 comment so far
Todos os dias se nos deparam em qualquer secção de classificados de todos os jornais diários portugueses pérolas de desespero mas simultaneamente de esperança na busca da pessoa certa. Alguns exemplos:
Desde o Clássico: Homem de 35 anos, nível superior, situação estável, procura, para partilhar momentos de carinho e ternura, Senhora também carente dos mesmos, num relacionamento discreto. Zona Maia, Ermesinde. Contacte-me
Ao Idealista e utópico: Olá, tenho 30 anos, sou solteiro e bom rapaz, gostava de encontrar a minha alma gémea, aquela pessoa muito especial, que nos ajuda a dar sentido á nossa vida, nos transmite confiança, alegria, está sempre presente nos bons e nos maus momentos. És tu mesmo que eu procuro! Sou dos arredores do Porto (Trofa),
Ao deprimido romântico e míope: Nos meus 34 anos de vida, cerrada de desgostos, incertezas, desilusões mais uma vez eu tento apenas encontrar alguém que eu possa dar tudo o que tenho… amor… amizade, companheirismo. Cansei de dar voltas e voltas pela cidade, só, olhando em redor buscando se existe alguém que me olhe ou note em mim… cansado de não ver nada[…]
Ao convencido adepto do Viagra : Se és mulher e sentes que precisas de algo mais? A tua vida é uma monotonia, necessitas de mais qualquer coisa? O Prazer já não é o que era? Queres mais e melhor prazer? Sem compromissos? Sem ligações? Sem custos? Sem chatices? Sem problemas? Se fores da zona de Lisboa e quiseres mudar o estado das coisas […]
Ao demasiado honesto: Sou honesto, compreensivo, trabalhador e muito tímido, sou bastante caseiro gosto de coleccionismo, banda desenhada, musica, informática e aquários, sou solteiro e moro sozinho. Sou um homem normal, com altura e peso na média, não sou nenhum Brad Pitt mas acho que tambem não sou nenhum Frankestein. Tenho olhos castanhos, cabelo preto e curto, pele […]
Ao patético e que nunca vai arranjar mulher : Olá, sou o Filipe tenho 25 anos, sou um rapaz de arredores de Aveiro, e ainda não tenho carta de condução. Estas são a minhas qualidades: sou humilde, sincero, honesto; não gosto de ver ninguém em baixo e triste, por isso quando vejo tento ajudar. Agora os meus defeitos: sou cismado, muito tímido, chato e negativo… mas….
Todos eles de forma errada procuram a pessoa certa. Mas segundo Luís Fernando Veríssimo, se reflectirmos bem sobre toda a nossa vivência, na verdade, não existe uma pessoa certa para todos nós. Existe uma pessoa para todos nós, que se você for parar para pensar é, na verdade, a pessoa errada. Porque nós nunca amamos a pessoa certa. Na verdade, não amamos verdadeiramente a essência de ninguém. Amamos a ideia que fazemos do que é a pessoa certa para nós. Mas nunca amamos ninguém de verdade nesta procura pela pessoa certa.
“ Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso – em suma, é a nós mesmos – que amamos. Isso é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa.” (Fernando Pessoa)
E nesta busca incessante, a maior parte de todos nós passa a sua vida numa procura ininterrupta pela pessoa certa. Namorar e experimentar novos relacionamentos é bom. Mas a procura da pessoa certa pode cansar. O cansaço fica patente na hora que você percebe que ter 5 pessoas ao mesmo tempo é o mesmo que não ter nenhuma. E ter apenas uma, pode ser o mesmo que possuir 10 ao mesmo tempo. Mesmo sendo a pessoa errada. Especialmente, se for a pessoa errada. E è isso que se deve procurar, a pessoa errada. E porquê? Porque a perfeição é abstracta.
Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugná-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito. (Fernando Pessoa)
A procura da pessoa certa é inócua. Vazia no seu conteúdo. Porque a pessoa certa faz tudo demasiado perfeito. È pontual nos deveres, fala as coisas certas no momento certo, toma a atitude correcta e mais sensata no momento ideal. Mas nem sempre, a nossa necessidade se baseia na postura assertivamente correcta das atitudes alheias. O errado humaniza a relação. A pessoa errada faz-nos perder a cabeça, perder a hora, a compostura, morrer de amor e de ciúme. A pessoa errada vai ficar um dia inteiro sem nos procurar de modo a que na hora do encontro na hora que vocês se encontrarem a entrega ser muito mais verdadeira.. A pessoa errada vai nos fazer carpir, mas meia hora depois vai estar enxugando as nossas lágrimas. Essa pessoa vai-nos causar insónias. Magoa-nos e depois enche-nos de meiguice clamando pelo nosso perdão. Essa pessoa pode não estar sempre ao nosso lado, mas vai estar o resto da sua vida esperando por nós. Vai estar todo o tempo do mundo com pensamento em você e esquecer-se de telefonar.
Nestas alturas você pergunta-se: porque razão aquela pessoa pela qual você trocaria ilusoriamente contrariado toda a sua programação festiva de fim-de-semana não aparece no seu sofá para assistir na companhia de um balde de pipocas a um qualquer obscuro e simples filme francês??? Basicamente porque nos apressamos na busca da felicidade. A pessoa certa aparece facilmente. A pessoa errada é mais difícil. Mas a sua aparição é inevitável porque a vida não é certa. Nada é certo na nossa vida e por isso a pessoa certa será a menos indicada para nos acompanhar nesse trajecto. A nossa única certeza é que temos que viver cada momento, cada segundo, adorando, encantando, lacrimejando, comovendo, cogitando, actuando, pretendendo, alcançando. A aparente impraticabilidade de um relacionamento com uma pessoa errada é, na verdade, o nosso seguro contra a infelicidade inerente ao movimento caótico das forças que regem a nossa vida. A felicidade pode e deve ser caótica.
Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente. O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis. (Fernando Pessoa)
È necessário procurar a “nossa” pessoa errada. A nossa felicidade depende disso. Sem medo. A vida não espera.
“ Para os erros, há perdão; para os fracassos, chance; para os amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. O romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando do que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando, porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu. (Luís Fernando Veríssimo)
Não tenha medo de errar somente não procure a pessoa perfeita. O Amor cego é a maneira de se escolher uma parceira. Aqui estão algumas ferramentas práticas para manter seus olhos bem abertos
Não escolha a pessoa errada porque espera que ele/ela mude.
Este é o erro clássico da maioria de todos os que procuram. Primeiro erro, não se deve procurar. E nunca uma pessoa em potencial. Se você não consegue ser feliz com a pessoa como ela é agora, não o vai ser no futuro. Na verdade, pode-se esperar que alguém mude no futuro… mas é para pior! Em questões como a espiritualidade, carácter, capacidade de comunicação e hábitos pessoais de outra pessoa, assegure-se de que pode viver com estes como são agora. O acto de nos apaixonarmos tem a ver connosco, somos nós que queremos actualizar uma parte de nós e que procuramos no outro características que gostaríamos de ter. A pessoa errada dá-nos essa certeza. De apreender e evoluir do nosso estado actual. Procurar a diferença.
A pessoa que se apaixona pela pessoa errada está a canalizar os sentimentos para o seu oposto, que de certa forma no sentido caótico da nossa evolução, é o seu complemento.
Quem escolhe a pessoa errada dá primazia a química e intuição em detrimento dos parâmetros da razão que analisam o carácter do outro.
Costuma-se afirmar que a química acende o fogo, mas o carácter o mantém aceso. A questão relevante é que o fogo pode-se manter acesso, mas qual será a sua intensidade? Podemos apresentar quatro traços de personalidade que a nossa “razão” costuma testar na escolha da nossa companheira:
Humildade: Esta pessoa acredita que “fazer a coisa certa” é mais importante que o seu próprio conforto pessoal?
Bondade: Esta pessoa gosta de dar prazer aos outros? Como é que ela trata as pessoas com as quais não tem de ser agradável? Ela faz algum trabalho voluntário? Faz caridade?
Responsabilidade: Posso confiar que esta pessoa fará aquilo que diz que fará?
Felicidade: Esta pessoa gosta de si mesma? Ela aprecia a vida? É emocionalmente estável?
Pergunte-se: Serão estas as qualidades para se manter com a mesma pessoa para o resto da sua vida? E porque estas qualidades e não outras? Quem se esqueceu da química nesta equação?
Homens e mulheres têm sempre necessidades emocionais específicas. Os Homens são de Marte e as Mulheres de Vénus é uma frase banalizada na cultura pop da nossa geração. A tradição judaica ajudou a concretização desta “verdade” globalizada. Coloca sobre o homem o ónus de entender as necessidades emocionais de uma mulher, e de satisfazê-las.
Na concepção cultural masculina para a mulher, o mais importante é ser amada – sentir que é a pessoa mais importante na vida do seu companheiro. Mas será a Humildade, a Bondade e a Responsabilidade as características básicas para cimentar esta perspectiva de Felicidade e Paixão Eternas? Você escolheria a Madre Teresa para sua companheira?
A atitude do judaísmo para com a intimidade sexual explica em parte muito deste estado de coisas. A Torá obriga o marido a satisfazer as necessidades sexuais da mulher. Até este ponto tudo bem. Mas o problema é que a intimidade sexual é sempre colocada em termos femininos. Os homens são orientados para um objectivo, principalmente quando se trata desta área. E aqui coloca-se o problema. Mas não deve ser o homem, devem ser os dois. E por isso eu proponha as características essências a uma relação “Errada” :
Individualidade – A individualidade é essencial numa relação. Não esquecendo as palavras de alguém que há poucos dias me elucidava a acerca desta matéria “ Individualidade não se deve confundir com egocentrismo ou egoísmo. Egocentrismo é apenas um imenso sol que queima tudo em seu redor. Já o egoísmo é o mesmo que eu beber veneno e esperar que todos a minha voltam morram”. A individualidade numa relação pode ser hedonística. Ou seja. a tendência clara para a busca do prazer imediato, individual; como única e possível forma de vida moral, evitando tudo o que possa ser desagradável. A falta de individualidade pode levar à Anedonia, ou seja, à perda da capacidade de sentir prazer, próprio dos estados gravemente depressivos derivados do ciúme, falta de amor-próprio ou carências afectivas. A individualidade permite-nos usufruir plenamente da nossa sexualidade, o que significa mais do que ter meras relações sexuais. Permite-nos saborear os nossos corpos, a nossa masculinidade ou feminilidade, e as nossas fantasias. A individualidade permite-nos valorizar a nossa capacidade de dar vida e partilham os nossos desejos de aproximação física e intimidade emocional.
Obsessão e Fascinação – Não há como negar, certas pessoas exercem sobre outras uma espécie de fascinação que parece irresistível. A fascinação é o processo de obsessão mais visível. Ao contrário do que muitos possam pensar a obsessão, desde que bem orientada, é positiva no manter de uma relação sólida. Não nos podemos esquecer que o sexo reside na mente, expressa-se no corpo espiritual, e consequentemente no corpo físico. A falta de obsessão por alguém desarmoniza as nossas forças numa relação, e por tal desarmoniza-nos a nós próprios, Desta forma a obsessão orientada contribui para o nosso equilíbrio sexual impedindo-nos de nos entregar-mos à rebelião e à loucura em síndromes psicológicos de ciúme ou despeito.
Desejo – O incessante progresso dos homens, na busca da felicidade, deve-o levar a viver uma sexualidade global, sem conflitos nem posses, destituídas de paixões e de ímpetos descontrolados. Nesta área a sensualidade com que se aborda a vida e as relações é importante dado esta ser a forma de paixão que mais nos aproxima da nossa natureza animal. Instintiva e corpórea. O desenvolvimento de qualquer relação baseia-se na experimentação por meio da tentação. A tentação tem origem na ideia de desejo. Fala-se de desejo na sua componente de desejo sexual. Não se fala aqui de amor. O desejo sexual é uma poderosa excitação física. Amor é um profundo carinho por alguém. Também pode incluir atracção sexual. O amor pode existir sem desejo sexual e o desejo sexual pode existir sem amor. Mas o amor sozinho não mantém a chama constante de uma relação.
Orgulho – O orgulho permite-nos de certa forma ter amor-próprio. A auto-estima é a chave de um relacionamento saudável e recompensador. Não podemos esperar que os outros nos respeitem se não nos respeitarmos a nós próprios. Permite-nos sermos honestos connosco próprios sobre o que nos faz e não faz sentir confortável – o que se quer e o que não quer. Quem se respeitam têm menos probabilidades de se envolverem em relações que firam o seu orgulho, não lhe tragam prazer e que nos magoem. Ninguém tem de admitir na sua vida o desconforto e a dor, na esperança de se vir a habituar. Ninguém tem se suportar o abuso para preservar uma relação. Isso é muito perigoso. Escolher alguém que sabe o que quer é uma vantagem para qualquer relação.
Escolher a pessoa errada significa não ter de partilhar metas de vida em comum e prioridades.
Você não tem de escolher o seu alter-ego. Esqueça a história da alma gémea. Não deve existir uma necessidade de compartilhar o mais profundo nível de conexão acerca dos objectivos de vida em comum. Qualquer relacionamento em que ambos os lados cheguem ás mesmas conclusões estreita a margem de progressão de ambos. Duas pessoas não tem obrigatoriamente de compartilhar o mesmo entendimento ou propósito de vida, e portanto possuírem as mesmas prioridades, valores e objectivos. A diversidade cria pluralidade. A pluralidade de opiniões cria um maior número de variáveis e de soluções. Desta forma quanto mais díspar forem as concepções do casal acerca da vida mais bem apetrechados estes estarão para fazerem face as diversas questões mutáveis que a vida lhes vai oferecer.
Escolher a pessoa errada implica envolver-se sexualmente.
O envolvimento sexual antes de qualquer forma de compromisso é essencial. O envolvimento sexual não tende a nublar a mente da pessoa. Nem a impede de tomar as decisões correctas.
È imprescindível descobrir se duas pessoas são sexualmente compatíveis. Nos divórcio, a incompatibilidade sexual pode não ser citada como o principal motivo para as pessoas se divorciarem, mas é apontada como um dos principais motivos de traição. Será preciso dizer mais?
Escolher a pessoa errada não significa a ausência de uma profunda conexão emocional com esta pessoa.
Para avaliar se você tem ou não uma profunda conexão emocional, pergunte: “Respeito e admiro esta pessoa?” Pergunte também: “Confio nesta pessoa?” Nada nos diz que seja impossível confiar na pessoa errada.
Escolher a pessoa errada significa não se sentir emocionalmente seguro.
Numa relação você não se deve sentir calmo, relaxado e em paz. Uma relação não é sinonimo de reforma numa bela e tranquila ilha das Caraíbas. È necessário sentir insegurança. Ter segurança é ter controlo. A pessoa errada jamais permitirá que tal aconteça. È necessário ter medo. Medo de perder. Mas esse medo não nos torna vulneráveis, torna-nos combativos. O medo impede as rotinas. Nada lhe é jamais dado. È necessário conquistar todos os dias. Amar e desejar todos os dias. È necessário esforçar-se, porque se sabe que vale a pena.
Escolher a pessoa errada não significa escapar a sua própria infelicidade.
Se você é infeliz sozinho, provavelmente será infeliz com outra pessoa. Os relacionamentos não resolvem problemas pessoais, psicológicos e emocionais. Na melhor das hipóteses, apenas os exacerbará.
Se você não está feliz consigo mesmo e com sua vida, aceite a responsabilidade de resolve-los sozinho. A pessoa certa poderá ajuda-lo mas você ficara eternamente dependente de uma gratidão que se pode confundir com amor.
Uma pessoa errada não se escolhe. Ela aparece do nada. Para nossa grande infelicidade. Porque a seguir a ela não existe mais nada.
Music: Gift ” Facil de Entender”


