Divorcio num fim de Verão Setembro 12, 2007
Posted by joão carlos santos in Main Road.add a comment
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È fim de verão e chove lá fora. È a primeira chuva de principio de Outono. Enuncia o fim de uma estação e sente-se o cheiro a terra molhada sobre as primeiras folhas que caem. È 11 de Setembro de 2007. Há datas que inconfundivelmente existem para nos marcar com o seu tom amargo. Há seis anos atrás preparava-me para regressar a Portugal vindo de Florianopolis quando assisti pela TV a tragedia em Nova York. Hoje assisti a tudo em directo, em slow (e)motion, só que em vez de ver emocionado edifícios a desmoronar vi o meu casamento declinar para conclusões finais.
Escrevo, frente a carta que recebi de umas mãos nervosas e exaustas. Talvez aliviadas; talvez esperançadas em voltar a sentir a felicidade que tanto merece. Ela tinha perdido o sorriso aberto e franco e a ambição de abrir portas e janelas. E eu sinto-me culpado. E pela primeira vez, em muito tempo, consegui chorar. Chorar de verdade. Um choro sem lágrimas que me oprimiu o peito e que me fez faltar o ar. Os olhos emudeceram mas não verteram uma lágrima. È horrível. È o peso do mundo do mundo no nosso peito. Talvez seja como morrer lentamente, completamente cognitivo e com consciência total.
À nossa memória vêm todos os momentos passados. Nesse momento os nossos olhos são como uma lente de uma máquina fotográfica onde se registam apenas as fotografias que conseguiram perpetuar as imagens e promessas eternas. As tais fotografias que são como posters daqueles pequenos nadas que fazem uma relação. E sente-se nostalgia perante a fogueira onde ardem todas essas fotografias. Talvez somente nas despedidas se conseguia amar realmente. Incondicionalmente. Porque tal como na morte é definitivo.
Curiosamente, os fantasmas e o assombro, o desgaste emocional das discussões e gritaria não aparecem. Na despedida encontra-se refúgio nas horas felizes. È por isso que as lágrimas não caem. Elas estão presas nas recordações.
Mas a culpa, essa, permanece estática durante todo o processo. Inabalável. Inerte. Possuidora da sua razão. Questionando-me sombriamente. Será que eu nunca me entreguei totalmente? Será que só o conseguia quando fazia amor? Será que a culpabilização que eu atribui a uma profissão desgastante era apenas um engodo da minha mente para me defender de algo que desconheço? Continuo sem perceber porque permiti que a distância se consegui-se instalar no meu casamento. Porque razão nunca aceitei esta doença e a sua inerente e corrosiva dor silenciosa? Porque me tornei indiferente a tudo? Porque aceitei a rotina?
Ausentei-me do problema em fins de semana e noites de ausência. Aceitei a minha alegria de puto como um remédio para a minha incapacidade de resolver a situação. No fundo fiquei tão sozinho no meio da multidão como ela no recato do lar. Mas a noite é ilusória e tem os seus passes de magia. Procurei nos sorrisos fáceis ocultos pela penumbra das luzes brancas, o colo. Procurei na música , o embalo. Vi na alegria do álcool o combate a solidão interna. Não dá para negar… sou um puto mesmo. Nasci com alma de puto, vivi como puto a vida toda e não consigo deixar de ser puto. O que é um puto? É, simplesmente, alguém que tem como um dos propósitos de vida: viver apaixonado. A alegria da noite contagia-me porque sou efusivo por natureza; mas não será na noite que encontrarei o meu propósito de paixão. Vivo a noite à demasiados anos para não ter essa consciência.
Nas letras da carta, consigo ver a autodeterminação de alguém quem sempre foi estruturalmente forte. A consciência da sua própria beleza e a naturalidade com que afirma que outros a podem desejar como mulher e apaixonar-se por ela, atingem-me como uma mistura de emoções. O orgulho que sempre senti pela sua natureza positiva e afirmativa. E a questão essencial. Em que parte do caminho é que terei ficado cego ou insensível a tais atributos?
Começo a pensar que o casamento seja um anti-climax. Nós assinamos um contrato, com testemunhas, assumimos um cargo, a mulher assume outro, têm empregados, têm associados (parentes e amigos), têm concorrentes (e muitos) e passam a funcionar como uma empresa… cada um com seu centro de custo e suas responsabilidades. E a empresa só é saudável quando cada centro de custo faz sua parte. As rotinas são essenciais ao funcionamento de uma empresa de sucesso. No casamento as rotinas levam a falência. Nada de emoção com a companheira… nem na cama, nem na rua.
Com as rotinas vem as crises. Depois que as crises do casamento começam, um só vê os defeitos do outro. Nestes momentos a memória não recupera os momentos bons e as qualidades antes encontradas na companheira. Com o tempo, e se não nos esforçarmos em sentido oposto, todos nós encontraremos defeitos insuportáveis no outro, que fará com que o relacionamento se desgaste e esteja condenado ao insucesso.
Mas o tempo é cruel, faz com que a rotina elimine a tentação pelo proibido. O sexo passa a ser elaborado demais. Parece até que tem que ter data e hora marcada. E disso, nenhum puto gosta. O casamento só sobrevive enquanto os dois estão felizes. Se um dos lados não for feliz, o romance desaba. Ou vive de fingimento e hipocrisia.
Com a rotina vem o desleixo com tudo, o excesso de futilidade, os gastos exacerbados, a perda geral de valores, o não reconhecimento. Começamos a não nos sentir amados. Não se consegue sentir o prazer de chegar a casa tranquilo e feliz por estar nos braços da amada, pois nós sentimo-nos amados e importantes para ela. E nesse momento começa-se a destruir aquele sentimento de continuidade no amor. Pior do que se sentir traído e não se sentir amado e acarinhado.
Tudo isto eu permiti que acontece-se. Não fui inteligente. Fui um péssimo gestor de emoções. Fui derrotado por tudo aquilo que eu detesto, a rotina. O casamento tornou-me rotineiro como um gestor de uma fábrica de produção em série. Esqueci-me do pormenor na ânsia da planificação global e desta forma cometi o erro básico que durante anos ensinei a não cometer. Consegui o material e perdi o emocional.
Como qualquer gestor de qualquer empresa tem relutância em aceitar a falência das suas praticas de gestão; é para mim muito duro, difícil e doloroso aceitar o facto de que as minhas acções estiveram erradas durante tanto tempo. É mais ou menos como o jogador na roleta: quando se está a perder acha-se sempre que a sorte pode virar, mas isso é uma racionalização. Na verdade o jogador refuta em sair de lá assumindo o prejuízo, assumindo a burrice de perder dinheiro no jogo. Podemos dizer que há um forte componente masoquista nesse comportamento, que há um factor cultural coercitivo, mas custa assumir que se desperdiçou tanto tempo, tanta energia, tanto investimento emocional, por uma má gestão das nossas acções.
“Eu falhei!!!”. Não foi ela, fui eu. A dor de assumir essa responsabilidade é algo inenarrável. Além dessa dor, que é puramente emocional, vêm as consequências, que são antecipadas por perguntas do tipo:
Como vou assumir isto perante a minha família? E os meus amigos? Vão-me culpar? Continuarão por perto? Vão-se dividir? O que farei? Para onde vou? Com que tipo de gente passarei a andar? Com quem?
Dói muito magoar alguém. Custa muito assumir a derrota, assumir o erro, assumir a perda. Custa muito falhar quando se tinha teoricamente tudo para dar certo.
Parou de chover…
Music :REM “End Of The World As We Know It “


