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Sentimento Positivo Agosto 28, 2008

Posted by joão carlos santos in Main Road.
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Regressei de ferias. Uma passagem de quinze dias pelo litoral alentejano. Foram sem duvida umas férias diferentes das decorrentes dos meus últimos anos. Distante do meu Algarve de sempre. Apartado das noitadas constantes na calendarização do passar do tempo solarengo. Os interesses e as circunstancias tinham mudado nos últimos meses. As prioridades refizeram-se por si mesmas. Com perfeita consciência da minha parte. E quando tal acontece sentimo-nos felizes. Quando o coração se vira para a esquerda toda a nossa vida que rumava a direita se transfigura na sua condução. Sentimos dificuldades. Estranhamos a mudança de faixa. Mas sente-se a felicidade de quem sente algo que nunca vivenciou. Por isso estas deveriam ter sido as ferias da minha vida. Mas não foram. Bem pelo contrario.

 

Estranho foi essa circunstancia ter ocorrido. O facto de não ter sido feliz quando o expectável apontava no sentido inverso. Mas o cenário estava atravessado por uma inultrapassável má encenação. A maquilhagem dos sentimentos nunca consegui ultrapassar as cicatrizes que vinham do passado. Colocar dez pessoas num espaço concebido para seis foi um mau começo. Nunca é fácil mas pode ser perfeitamente ultrapassável. Tendo em atenção que três dessas pessoas são crianças, torna tudo um pouco mais difícil. Quando se acrescenta que cada uma dessas crianças é um ser individual com tipos de educação e gostos diferenciados, o caso começa a tornar-se mais difícil.  Quando se percebe que  a casa possui apenas um único WC a situação complica-se . Mas qualquer pessoa aguenta tudo isto mesmo com níveis de higiene menos rígidos do que o habitual. O problema é  quando se percebe que duas dessas pessoas não se suportam . Tudo se torna insuportável. 

 

 As razões do desentendimento entre essas duas pessoas iram ficar para outro post. Não é relevante para a historia que convosco partilho. A historia que vos conto hoje é extremamente simples mas com contornos decisórios difíceis de analisar. È como analisar uma pequena sociedade. Um conflito gera sempre dois pólos. As pessoas tomam partidos mesmo sem saberem as causas do conflito. È normal. A maioria das pessoas vota num partido sem conhecer o sem caderno eleitoral e a maioria das suas propostas. Na vida pessoal os parâmetros são muito semelhantes. Cada um defende a parte que lhe é mais querida. Até aqui tudo normal. Infelizmente comprei uma guerra justa em território inimigo. E naturalmente fiquei ligado ao grupo mais pequeno. E logicamente excluído.  Ligado aos que não faziam parte do tal grupo. E  curiosamente fiquei na situação que mais gosto. Em desvantagem. E isso é precisamente o que de melhor me podem fazer para me motivar. Colocarem-me em desvantagem. E foi precisamente neste momento que cometi o meu maior erro. Perdi o focos. Esqueci-me do motivo principal pelo qual estava naquele lugar. Esqueci-me de apreciar a minha companhia. Esqueci-me de ser feliz por momentos.

 

 

A minha visão da justiça e do sentido de repulsa pela hipocrisia e maldade fez-me cegar pelo ódio. Esqueci-me do amor. Esqueci-me que mesmo em ferias acontecem coisas. Coisas que são apenas acontecimentos normativos que decorrem da maturidade e crescimento individual das pessoas com as quais contracenamos. Mas interagir nem sempre é fácil de conseguir. Mesmo com pessoas do mesmo grupo etário com as quais deveríamos partilhar valores semelhantes. Aprendemos a andar , falar e a ler mais ou menos na mesma altura. Enfrentamos a adolescência circunstancialmente na mesma época. Mas com passar dos anos as experiencias vão nos modificando. Alguns casaram-se. Outros não. Alguns tiveram uma prole pela sua mão. Outros nem por isso. Alguns tiveram crises familiares. Outros sempre foram felizes . Alguns tiveram problemas profissionais. Outros sempre foram bafejados pelo sucesso ou pela pacatez da sua imobilidade. Uns perderam pessoas pelo caminho. Outros ganharam novos relacionamentos.  Mas independentemente do significado e importância que lhe atribuímos todos passamos por algumas destas circunstancias. Coisas que nos acontecem. Mas a grande diferença esta no valor que lhe atribuímos . No facto de atribuirmos um valor chave , ou não, na nossa existência.

 

Este simples factor, transforma-nos enquanto pessoas. A forma como atravessamos estes acontecimentos marca-nos mais do que podemos imaginar. Com alegria, sofrimento ou sem grande consciência critica. A forma como encaramos as situações é marcante. Forma a nossa personalidade. Vivemos os factos como sendo únicos e singulares, mesmo sabendo racionalmente que tudo isto já aconteceu a muitos outros. Mas a nossa experiência de vida será sempre única. Ninguém a pode viver por nós. Ninguém pode indicar qual o melhor sentimento a utilizar para enfrentar um determinado facto. E a forma como enfrentamos uma circunstancia determina a forma como iremos enfrentar a próxima. Como se a vida fosse uma sequencia de elos derivados de probabilidades causais. Elos que vão formando a nossa personalidade. Em ultima analise.

 

Lidamos com as circunstancias como sabemos. Não existem regras definidas. Utilizamos os recursos pessoais que possuímos para ultrapassar saudavelmente as tensões e desgostos. Melhor ou pior. Não sabemos. E depois existem situações inusitadas, extravagantes e destruturantes que testam os nossos limites. E esses nossos limites são os princípios pelos quais regemos a nossa vida. A essência da nossa personalidade. E nestes casos a nossa resposta é complexa. Não sabemos ultrapassar esses nossos limites. Ficamos presos neles. Intransigentes. Renitentes em ceder a novas perspectivas. E foi exactamente isso que me aconteceu. Talvez por ter conseguido avançar na vida mais do que a maioria , sem grandes confrontos, frustrações ou contrariedades. Talvez por isso hoje reaja de forma mais violenta e dramática a tudo o que provoque a violação dos meus princípios estruturantes de conduta humana e social. Talvez por isso tenha uma reacção excessiva á injustiça, hipocrisia, maldade e egoísmo.

 

 

Talvez não esteja educado para viver no mundo que realmente existe. Para lidar com os acontecimentos que nem sempre são perfeitos. Para partilhar a vida com pessoas que nem sempre agem da melhor maneira. Esse foi o meu grande erro nestas ferias. E a minha grande lição. Dei prioridade ao ódio em detrimento do amor. Desconfiei de lealdades. Desestruturei-me enquanto pessoa a combater moinhos de vento. Aventurei-me por planícies sem sequer esperar pelo meu fiel escudeiro. A combater a vida. Logicamente tinha de perder . Ninguém ganha ao passar inexorável dos acontecimentos triviais da vida. Ninguém  endireita o mundo . Ninguém consegue  moldar o carácter dos outros. Esse é um trabalho da própria vida em si mesma. Felizmente , não me perdi como um Dom Quixote moderno. Porque alguém me sussurrou bem perto do meu ouvido – “ o amor é um sentimento positivo”. Alguém, me agarrou na mão, e ajudou a mudar os meus princípios. O amor é mesmo um sentimento positivo. Só precisamos de ter a sorte de o encontrar. 

 

COLDPLAY ”  VIVA LA VIDA”